quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A MENINA QUE SE ENFEITAVA DEMAIS

(Filipinas)

Os pais de Aree davam-lhe tudo o que ela queria. Cumulavam-na de presentes.

— Aree, estas argolas de oiro haveriam de ficar tão bem nas tuas orelhas delicadas. Temos de tas comprar!

— Aree, aquela pulseira de prata havia de ficar tão bem no teu braço fino. Temos de ta comprar!

— Aree, aquele anel de rubis havia de ficar tão bem no teu dedo elegante. Temos de to comprar!

Sempre que viam um corte de seda especialmente bonito, exclamavam:

— Oh, Aree, que bem havia de ficar-te aquela cor! Temos de te comprar esta seda!

O quarto de Aree estava cheio de guarda-jóias e de arcas a abarrotar de cortes de seda. Um dia, Aree ouviu falar de um baile na aldeia que ficava para lá das montanhas.

— Eis uma excelente oportunidade para exibir as minhas roupas requintadas! Mas, que cor hei-de usar? Cor-de-rosa, fúcsia, escarlate? Azul celeste ou verde-claro? Talvez violeta… ou púrpura… ou magenta. Talvez amarelo-torrado… ou verde-esmeralda. Penso que vou usar cor-de-rosa.

Vestiu um vestido cor-de-rosa brilhante. Mas havia um outro vestido, cor de esmeralda.

— Este verde é tão elegante! Talvez possa usar os dois!

Vestiu o verde por cima do rosa.

— Assim, posso exibir dois dos meus vestidos de seda! Só que este fúcsia é o mais alegre de todos. Penso que o vou usar também.

Pôs o fúcsia por cima do verde e começou a voltear.

— Vou ser a rapariga mais bonita do baile!

Mas não se ficou por ali.

— Este amarelo-torrado é especialmente bonito. E vejam só este azul brilhante…Ninguém tem sedas tão caras como as minhas. Já agora, porque não usá-las todas? A azul clara…a violeta…esta púrpura com fios de oiro puro. Se usar todos os meus vestidos, vou ser, de certeza, a rapariga mais bonita do baile.

A vaidosa Aree vestiu tudo o que tinha no armário. Como as roupas eram pesadas, ficou sem conseguir mexer-se.

— São um pouco pesadas, mas vejam só! Sou a rapariga mais bela do baile!

E a escolha continuou:

— E que pulseira usar? A de ouro? Sim. A de prata? Claro. A de jade? É a minha favorita. E os anéis? O de rubis? O de safiras? O de esmeraldas? O de pérolas? O de opalas? Todos eles, sem dúvida alguma!

Aree pôs todas as jóias que possuía. As amigas chegaram pouco tempo depois.

— Aree! Pareces…

Nem sabiam o que dizer. Aree saiu de casa aos tropeções, carregada de sedas, anéis, pulseiras e brincos. Mal podia andar. Mas sentia-se orgulhosa.

— Vejam só as minhas belas roupas. Vejam só o meu oiro e as minhas jóias. Vou de certeza ser… a rapariga mais bela do baile!

Parecia tão pateta que as amigas fizeram um esforço para não se rirem.

Partiram em direcção à aldeia. Mas Aree não conseguia acompanhá-las. Cedo começou a bufar de irritação.

— Esperem por mim! Esperem por mim! Não consigo subir a colina!

As amigas vieram ajudá-la.

— Podíamos empurrar-te pela colina acima.

— Não me empurrem porque podem amarrotar os meus vestidos!

— Podíamos puxar-te pela colina acima.

— Não me puxem porque podem sujar as minhas roupas de seda.

As raparigas decidiram deixar Aree para trás. Esta cambaleou durante algum tempo sozinha até que as chamou de novo.

— Esperem por mim! Esperem por mim! Não consigo subir a colina!

As amigas voltaram para trás.

— O que vocês têm é inveja das minhas roupas requintadas. Se fizer o que me dizem, já não serei a rapariga mais bela do baile.

Aree recusou-se a tirar fosse o que fosse. As amigas deixaram-na ficar ali e foram ao baile sozinhas.

Durante o dia todo, Aree arrastou-se pela colina acima debaixo de um sol escaldante. Chegou ao cume à noitinha. Parou, demasiado exausta para dar mais um passo, enfiada naquelas roupas pesadas.

Quando as amigas regressaram do baile, Aree ainda estava demasiado cansada para se poder mexer. Foram buscar os pais dela e, quando estes chegaram, Aree já não se sentia vaidosa.

— Pai, mãe, vesti coisas a mais! Não preciso destas roupas todas!

— Tira então alguns desses vestidos e algumas dessas jóias pesadas. Ensinámos-te a querer demasiado. Tens de aprender a contentar-te com menos.

Jóia a jóia, vestido a vestido, Aree despojou-se de todas as suas coisas. Da vez seguinte que foi a um baile, estava lindíssima no seu vestido simples.

Margaret Read MacDonald
The Girl Who Wore Too Much
Arkansas, August House, 1998
tradução e adaptação


endereço: http://interculturalidades.wordpress.com/2008/04/24/a-menina-que-se-enfeitava-demais/

imagem: universomulherfashion.blogspot.com


17 comentários:

Jorge disse...

Da Adélia:

Jorge Querido

Lá vai meu comentário sobre: "A Menina que se enfeitava demais"

Pode-se fazer uma analogia com as pessoas que colocam inúmeros artifícios, apresentando tudo menos a si próprias.
Ao conseguirem sentir que a sua essência, sua real natureza não é isto que tanto necessitam e que apresentam ao nível social, podem transcender despojando-se de tais complementos excessivos. Assim, despojadas, serão o que relamente são e permitirão uma troca genuína com os demais ao redor. Troca de alma para alma, a única possível de efetivar uma Vida Plena!

Um ótimo dia!

A imagem inserida em seu post, aquela doce e encantadora menina, é a mesma que desde o início de meu outro blog, a tenho inserida. Ela tem muito a ver com minha alma: olhar terno para com a Vida e a suavidade em apreciar tudo é magnífico pelo caminho que passa...
Relembrei-me dela mais 1 vez.
Beijos.

Cris França disse...

Ola Jorge meu amigo, quando mais simples melhor, sempre pensei assim, e digo aos meus amigos vá no menos que vc nunca erra.
Não tem nada que eu queira esconder com adereços...rsrsrs, mas a vaidade feminina é um bom motivo para contos não acha?

um grande abraço

Valdeir Almeida disse...

Jorge,

Amanhã é o grande dia da Coletiva “Professores do Brasil”. Você estará contribuindo para a valorização dos professores.
Até amanhã!

Fernando Christófaro Salgado disse...

Olá amigo Jorge!
Fico bastante satisfeito quando encontro um comentário seu em meus textos, primeiro porque são sempre belos comentários e segundo porque vejo que estou conseguindo expressar o penso e sinto de forma clara!
Que bom que você se sente a vontade por lá! A recíproca é verdadeira! Sinta-se a vontade de se estender o quanto quiser nos seus comentários, sempre! Eles também são uma grande fonte de aprendizado para mim!
Quanto ao interessante texto acima tenho a comentar que devemos valorizar muito mais o ser do que o ter! Não ser a mais bonita da festa, por ter as roupas e jóias mais bonitas e caras, mas ser alguém com humildade e que respeite os outros, sempre aceitando ajuda quando necessário.
Abraços,

Fernando C. Salgado.

Norma Villares disse...

Ola Jorge meu amigo, parece que é a realidade do mundo atual. O excesso de individualidade levou ao caminho do TER em detrimento do SER. O processo aducacional precisa de revisões sérias. O excesso inicia na educação da célular pater/mater.
Mas é bom falar, discutir.
Excelente texto.
Abraços

ஜ♥ Sara ♥ஜ disse...

"Menos é mais..."
Um abraço.

Sonia Regly disse...

Vim conhecer o seu rico e maravilhoso Espaço e convidá-la para conhecer o Compartilhando as Letras:

www.compartilhandoasletras.com

Jeanne disse...

É exatamente o que acontece nesta sociedade cada vez mais consumista. A maioria tem mais do que precisa.
O texto retrata bem este desvio de comportamento.
Afinal a gente só leva desta vida os valores do espírito, não é mesmo?
Beijos

Julimar Murat disse...

Bom dia Jorge

Voce tem nos tocado a alma com estes textos.
Eles nos fazem refletir. Voce sabe que lendo ontem a noite, eu acordei pensando e resolvi deixar aqui meu comentário.
A vaidade, como tantos outros nos fazem afastar da nossa verdadeira essência.
A grande revolução de nossas vidas está em despojarmos destas indumentárias que nos impedem de caminhar.
A luz do mundo será apenas o reflexo de nós mesmos.

Um grande beijo
Julimar

Jorge disse...

Olá, Cris,
A vaidade humana tras o orgulho. Queremos nos mostrar o que não somos. E na simplicidade está a receita da felicidade pois é despojar do excesso.
Quanto a vaidade feminina, dá bons contos e dá moda também.

Um beijo, e obrigado pela visita.
Jorge

Jorge disse...

Oi, Valdeir. Hoje é o dia e já postei. Fiz do meu pensamento as palavras do grande Paulo Freire.

Um super-abraço e obrigado pelo convite!!!

Jorge

Jorge disse...

Fernando,
obrigado pelo estímulo.

Valorizar o SER. Porque valorizamos tanto o TER? Carência? É um tanto desgastante o TER pois nunca nos satisfazemos. Sempre falta e isso é doloroso porque nos sentimos sempre incompletos. E só nos voltando para o SER que realmente nos harmonizamos.

Abraços,

Jorge

Jorge disse...

Oi, NOrma!!!

A educação começa no lar. Concordo plenamente, mas frisando um pouco mais, é muito mais pelo exemplo. Mas também os professores , que aliás, é seu dia, também tem um importante papel de educador. O mundo realmente precisa-se "reciclar" em novas idéias mesmo porque, Norma, as crianças de hoje são mais preparadas,inteligentes e espertas do que de antigamente.

Norma, um beijo, de coração,

Jorge

Jorge disse...

Oi, Sara

Gostei, curto e direto....

Beijo,
Jorge

Jorge disse...

Olá, Sonia,

obrigado pela visita, Passarei por lá, sim.

Obrigado!!!

Jorge

Jorge disse...

Olá, Jeanne,
Realmente viemos sem nada e nada levaremos. Questionamos m uito do porquê as pessoas tendem a valorizar mais as riquezas da terra em detrimento das espirituais. Creio que , muitos não crêem na vida pós morte, outros não se interessam e estão mais voltados ao TER, outros para preencher carências e ainda aqueles que são incentivados pela própria família.
Já sabemos a consequência disso tudo, não é mesmo?

Beijo, Jeanne,
Jorge

Jorge disse...

Oi, Juli, doce amiga!!!
Espero que tenha dormido bem!!!..rs
Pelo menos acordou inspirada!!
A frase "A luz do mundo será apenas o reflexo de nós mesmos." mostra a realidade do que somos e do que seremos. Somos o artífice do nosso destino, causa e consequência de nós mesmos. Então o mundo será o nosso reflexo. E a sua luz, o que fizermos dela.

Juli, um beijo

Jorge

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