domingo, 10 de janeiro de 2010

O AZULEJO BUMERANGUE


Jorge Bucay
Deixa-me que te conte. Os contos que me ensinaram a viver.
Cascais, Editora Pergaminho

Damião é um rapaz curioso e inquieto, que deseja saber mais acerca de si mesmo. Esta busca leva-o a conhecer Jorge, “o gordo”, um psicanalista muito invulgar que o ajuda a enfrentar a vida e a encontrar as respostas que procura através de um método muito pessoal: em cada sessão, conta-lhe um conto. São contos clássicos, modernos ou populares, reinventados pelo psicanalista para ajudar o seu jovem amigo a esclarecer as suas dúvidas. Trata-se de histórias que nos podem ajudar a todos a compreender-nos melhor a nós próprios, a ponderar as nossas relações e a ver os nossos temores com outros olhos.

(Excerto)

O azulejo bumerangue

Naquele dia, eu estava muito irritado. Estava de mau humor e tudo me incomodava. A minha atitude no consultório foi lamurienta e pouco produtiva. Detestava tudo o que fazia e tudo o que tinha. Mas, acima de tudo, estava aborrecido comigo mesmo, como num conto de Papini que o Jorge me leu, naquele dia eu sentia que não conseguia suportar «ser eu mesmo».

— Sou um estúpido — disse-lhe (ou disse para mim próprio). — Um imbecil… Acho que me detesto.

— És detestado por metade da população deste consultório. A outra metade vai contar-te uma história.

Era uma vez um homem que andava sempre com um azulejo na mão. Tinha decidido que, quando alguém o irritasse a ponto de ficar cheio de raiva, lhe daria com o azulejo na cabeça. O método era um bocado troglodita, mas parecia eficaz, não achas?

Acontece que se cruzou com um amigo muito prepotente, que lhe falou com maus modos. Fiel à sua decisão, o homem pegou no azulejo e atirou-lho à cabeça.

Não me lembro se lhe acertou ou não. Mas acontece que, depois disso, o facto de ter de ir buscar o azulejo depois de o arremessar lhe pareceu um bocado incómodo. Decidiu, então, inventar o «Sistema de Autopreservação do Azulejo», como lhe chamou. Atou um cordel de um metro ao azulejo e saiu para a rua. Isto permitia que o azulejo nunca se afastasse demasiado, mas rapidamente o homem constatou que o novo método também tinha os seus problemas: por um lado, a pessoa destinatária da sua hostilidade tinha de estar a menos de um metro de distância e, por outro, depois de atirar o azulejo, era obrigado a recolher o fio que, além do mais, muitas vezes se enredava e fazia nós, com todas as chatices que daí decorriam.

Foi então que o homem inventou o «Sistema Azulejo III». O protagonista continuava a ser o mesmo azulejo, mas, neste sistema, em vez de estar atado a um cordel, estava atado a um elástico. Agora, o azulejo podia ser lançado uma e outra vez e voltaria sempre para trás, como um bumerangue, pensou o homem.

Quando saiu de casa e recebeu a primeira agressão, atirou o azulejo. Mas foi um fiasco total: quando o elástico entrou em acção, o azulejo voltou para trás e acertou em cheio na cabeça do próprio homem.

Tornou a tentar e levou segunda vez com o azulejo na cabeça por ter medido mal a distância.

À terceira, foi por ter atirado o azulejo fora de tempo.

A quarta vez foi muito sui generis, porque, depois de ter decidido bater na vítima, arrependeu-se e tentou protegê-la, acabando por levar com o azulejo na cara.

Ficou com um galo enorme…

Nunca se soube porque é que o homem nunca conseguiu acertar com o azulejo em alguém: se foi por causa das pancadas que levou, ou se por uma alteração no seu ânimo.

Todas as pancadas acabaram sempre por ser auto-infligidas.

— Chama-se a este mecanismo retroflexão: basicamente porque consiste em proteger os outros da nossa própria agressividade. Sempre que o pomos em prática, a nossa energia agressiva e hostil detém-se antes de chegar ao outro, através de uma barreira que nós impomos a nós próprios. Esta barreira não absorve o impacto, limita-se a reflecti-lo. E toda essa irritação, todo esse mau humor e agressividade se viram contra nós mesmos, através de comportamentos reais de auto-agressão (autolesionar-se, enfardar-se de comida, consumir drogas, correr riscos desnecessários) e, outras vezes, através de emoções ou sentimentos dissimulados (depressão, culpa, somatização).

É muito provável que um utópico ser humano «iluminado», lúcido e íntegro nunca se irrite. Seria óptimo para nós se nunca perdesse-as estribeiras, no entanto, uma vez que sentimos raiva, ira ou irritação, a única maneira de nos livrarmos delas é arrancando-as cá para fora transformadas em acção. Caso contrário, a única coisa que conseguimos, mais cedo ou mais tarde, é irritarmo-nos com nós próprios.



endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2009/11/19/o-azulejo-bumerangue-jorge-bucay/

imagem: santiagoatelier.blogspot.com


14 comentários:

Jeanne disse...

É legal porque através de histórias fica mais fácil perceber como acontecem os distúrbios na mente.
Beijos

Blogat disse...

Na verdade temos é MUITO receio de nossa própria agressividade e da destruição que esta pode causar...Assim, atiramos"aos outros" aquilo que deveras sentimos.Boa maneira tb de nos sentirmos"bonzinhos",perante os outros e, principalmente,nós mesmos.
Mas o "bumerangue" está lá.Pronto para atingir o ponto de partida.
Melhor mesmo é transformar em ação(positiva de preferência)esta energia toda.
Nossa,escrevi um "tratado"...mas o assunto é fascinante.
Beijos terapeuticos

Jorge disse...

Jeanne,
É mesmo!!!

beijo,
Jorge

Jorge disse...

Alice
è um forma muito boa de contar sobre as nossas defesas.
VOCÊ É ÓTIMA!!!

Tenha uma semana repleta de alegrias!!
Beijo!

Carmem L Vilanova disse...

Amigo Jorge, muito bonito este texto... pleno em verdades!
Obrigada pela partilha... :o)
Beijos, flores e muitos sorrisos... sempre!
Uma linda semana!!!!

Jorge disse...

Carmem

Sempre grato a sua presença alto astral!
Um beijo de luz,
Jorge

Marcia disse...

Amigo,
A nossa agressividade pode causar danos irreparáveis e que nos farao arrepender gravemente. É bom aprendermos a controlar os nossos impulsos, na hora da irritacao contar até dez, ou fazer como Chico nos ensinou: beber a água da paz!

Água da Paz
Uma das histórias mais conhecidas a respeito de Chico é a da Água da Paz. Dizem que era muito comum, antes de se iniciarem as sessões no centro espírita Luiz Gonzaga, ocorrerem algumas discussões a respeito de mediunidade, especialmente provocadas por pessoas pouco esclarecidas sobre o assunto. Essa situação começou a provocar certa irritação em Chico, que tentava explicar o que acontecia, mas nem sempre era compreendido.

Num dos momentos de irritação, sua mãe apareceu a ele mais uma vez e ensinou-lhe uma forma simples para acabar com essa situação. “Para terminar suas inquietações”, ela falou, “use a Água da Paz”. Chico ficou contente com a solução e começou a procurar o medicamento nas farmácias de Pedro Leopoldo – sem sucesso. Procurou em Belo Horizonte, e nada. Duas semanas depois, ele contou à mãe que não estava encontrando a Água da Paz, ao que ela lhe disse: “Não precisa viajar para procurar. Você pode conseguir o remédio em casa mesmo. Quando alguém lhe provocar irritações, pegue um copo de água do pote, beba um pouco e conserve o resto na boca. Não jogue fora nem engula. Enquanto durar a tentação de responder, deixe-a banhando a língua. Esta é a água da paz”. Chico entendeu o conselho, percebendo que havia recebido mais uma lição de humildade e silêncio.
Beijos

Marcia disse...

Desculpe um comentário tao longo, mas é que me lembrei deste conselho do Chico.

Maria José disse...

Jorge, meu amigo. Como é importante lermos textos como este. Pararmos, analisarmos nosso comportamento e reação diante das situações de conflito. Repensarmos e então, decidirmos pela mudança. Aquela que não só nos favorece, mas aos outros também. Adorei o texto. Beijos e tenha uma semana feliz.

Silvana Nunes .'. disse...

Olá, boa tarde.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... está convidando para conhecer uma lenda bastante contemporânea - a do pássaro-cabeça-de-vento.
É só clicar no link http://www.silnunesprof.blogspot.com que você chega até lá rapidamente.
A PAZ .
Saudações Florestais !

Jorge disse...

Márcia,
belo exemplo o do Chico.
Somos impulsivos e podemos acabar´lesando alguém, que no fim somos os maiores lesados pois entra a consciência.

Um beijo em teu coração,
Jorge

Jorge disse...

Maria José,
a água da paz é uma excelente sugestão.
Deixar a nossa lingua se queimar com água quente de raiva do que queimar a nossa consciência pelo peso que se cria.

Um beijo, com amor,
Jorge

Jorge disse...

Silvana,
Obrigado pela sua visita!!!
Saudações urbanas,
Jorge

Norma Villares disse...

Cadê você meu bom amigo. Saudades!

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