sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A CERCA


contadores.destorias

A Sr.ª Vitória vivia nos arrabaldes da cidade. À volta da sua casinha havia um jardim com árvores de fruto e canteiros de flores e legumes. Não morava sozinha. Tinha um cão, um Schnauzer preto e cinzento que, quando ladrava, mais parecia um barril de metal cheio de pedras a rolar por uma encosta. Chamava-se Tasso, e era com ele que a Sr.ª Vitória falava quando estava só, o que, aliás, acontecia muitas vezes. Não tinha filhos nem demais família, e já era tão idosa que dificilmente poderia fazer novos amigos. Só tinha o seu Tasso, a quem adorava. Ai de quem dissesse mal do Tasso! A fúria trazia-lhe à boca palavras feias e a ira subia-lhe aos olhos.

A Sr.ª Maria morava também nos arrabaldes da cidade. À volta de casa havia igualmente um lindo jardim bem arranjado, com relva e abetos brancos, bétulas e salgueiros. A Sr.ª Maria tinha filhos, filhas e netos, mas estes não se preocupavam com ela porque era idosa e infeliz, e não tinha grande fortuna. E, tal como a Sr.ª Vitória, tinha também um cão, um baixote a que dera o nome de Niki. Quando Niki ladrava, parecia que cem garotos traquinas estavam a brincar com apitos… todos ao mesmo tempo! Mas, para a Sr.ª Maria, o ladrar do seu cãozinho era maravilhoso e os olhos brilhavam-lhe quando ele, com o focinho cheio de terra, parava a ladrar em frente de algum buraco de ratos.

A Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria eram vizinhas. Os jardins estavam separados por uma cerca de ripas de madeira, mas nem a Sr.ª Vitória nem a Sr.ª Maria se aproximavam dela se a outra estivesse no fundo do jardim. Não gostavam uma da outra. Nunca tinham tentado trocar uma palavra, e os culpados disso eram Tasso e Niki.

Todas as manhãs, mal as portas das duas casas se abriam, Tasso e Niki precipitavam-se para o jardim, corriam para a cerca e, de dentes arreganhados, corriam de um lado para o outro, para cima e para baixo ao longo da cerca, latindo furiosamente: o barril de metal rouco e o apito estridente. Com o pêlo eriçado e os beiços a espumar, prontos a saltar ao pescoço um do outro a qualquer momento. E, todas as manhãs, a Sr.ª Vitória e a Sr.ª Maria apareciam à porta com má cara e de mãos trémulas, a chamar os seus queridos.

— Tasso! Tasso! Querido! Já aqui! Deixa esse cão mau — chamava a Sr.ª Vitória indignada.

— Niki, Niki! Já para aqui! Vem comer a tua carninha. Deixa esse selvagem! — gritava a Sr.ª Maria fora de si.

Quando os cães se separavam e voltavam para as donas, eram recebidos com muita efusão, acariciados e conduzidos às tigelas da comida. As portas fechavam-se com estrondo, e a Sr.ª Maria e a Sr.ª Vitória voltavam a ficar a sós com os seus cães.

— És um cão muito bonito — dizia a Sr.ª Vitória ao seu Tasso, enquanto lhe passava a mão pelo pêlo. — Isso! Ralha àquele cão mau! Tem um ladrar tão feio! Tu não! Tu és um bom cão, um cão muito bonito.

Do outro lado da cerca, a conversa era a mesma:

— Anda, Nikinho, aqui tens a tua carninha. É assim mesmo! Mostra àquele feio que aqui não há-de fazer o que quer. Um selvagem daqueles! — dizia a Sr.ª Maria ao seu cão.

A Sr.ª Maria ia em seguida ao quarto de banho, fingia que sacudia as cortinas e espreitava para o jardim. A Sr.ª Vitória ia igualmente ao quarto de banho, subia a um banquinho e, com cautela, deitava uma olhadela por cima da cerca. Depois, as duas senhoras abandonavam os seus postos de observação e ficavam satisfeitas quando não viam ninguém no jardim.

Certa noite, uma tempestade passou por aquela zona, lançou rajadas de vento sobre o jardim, sacudiu as árvores e os arbustos, abanou a velha cerca e partiu-lhe um pedaço.

O dia seguinte amanheceu calmo e sereno. Só a chilreada dos pássaros era a do costume, e assim esteve, até as portas das duas casas se abrirem e Tasso e Niki se precipitarem para fora.

Atiçaram-se um ao outro, lançaram-se contra a cerca, ladraram, espumaram, arreganharam os dentes, correram ofegantes ao longo da cerca tentando apanhar-se, voltaram para trás e tornaram a correr até à outra ponta. Até ao local onde a tempestade a tinha derrubado.

Os cães pararam. O ladrar morreu. De um momento para o outro, encontravam-se frente a frente, sem a cerca a separá-los, assustados, surpreendidos, quietos. Durante uns segundos, olharam-se, desconfiados, sem se mexerem, até que, aos poucos, as orelhas caídas se foram levantando, o pêlo eriçado se acalmou, as caudas começaram a mexer-se e a abanar. Depois, tocaram-se levemente nos focinhos, farejaram-se e começaram a andar em círculo, cada vez mais depressa, até que Tasso entrou a correr pelo jardim de Niki, com este atrás. Desataram a correr à volta da casa, de início sem fazerem barulho, tentando apanhar-se um ao outro, e passaram para o jardim de Tasso. Empurravam-se, davam cambalhotas, rolavam na relva, latiam baixinho de prazer e alegria para depois continuarem naquela perseguição desenfreada.

Quando chegou à porta, a Sr.ª Vitória estranhou o silêncio. A Sr.ª Maria também abriu a boca de admiração quando se preparava para chamar o seu queridinho, não pelo silêncio em que o jardim se encontrava, mas por ver dois cães com a língua de fora, a correr em círculo à volta das bétulas e dos salgueiros.

— Niki! — gritou indignada a Sr.ª Maria.

Os dois cães correram até junto dela, deitaram-se aos seus pés, rodearam-na, roçaram-se-lhe nas pernas, lamberam-lhe as mãos. Dispersaram em seguida, tornaram a sair para correr à volta da casa e passaram para o outro jardim, subindo os degraus da porta das traseiras, de onde a Sr.ª Vitória, decepcionada, assistia àquela correria desenfreada. Confusa, desceu ao jardim, e foi imediatamente cercada pelos cães, que corriam à sua volta, saltando e latindo, rebolando-se e batendo com o focinho nas mãos dela. Depois afastaram-se. Tasso procurou a maior macieira, no tronco da qual levantou a pata, e correu para o seu jardim, seguido por Niki, que escolheu o salgueiro do jardim da Sr.ª Maria para deixar a sua marca.

A Sr.ª Vitória aproximou-se devagar da cerca do jardim, para ver os estragos provocados pela tempestade.

A Sr.ª Maria apareceu à esquina da casa e parou, mas lá se foi aproximando da cerca, hesitante.

— A trovoada desta noite… — disse a Sr.ª Vitória.

A Sr.ª Maria acenou.

— A tempestade — acrescentou.

— Foi uma sorte não ter havido mais estragos — disse a Sr.ª Vitória.

— E não terem caído árvores, graças a Deus — disse a Sr.ª Maria.

— E não se terem estragado telhados — acrescentou a Sr.ª Vitória.

Depois olharam à sua volta.

— Mas onde é que estão os cães? — perguntou a Sr.ª Vitória.

— Talvez em minha casa. Deixei a porta aberta — disse a Sr.ª Maria, dirigindo-se rapidamente para casa.

A Sr.ª Vitória também queria segui-la para ir buscar o seu Tasso, mas não se atrevia a passar a cerca. Ficou a olhar para a vizinha, que se afastava. A Sr.ª Maria virou-se de repente.

— Venha — disse. — Vamos procurar os cães!

A Sr.ª Vitória passou a cerca estragada. Estava com uma sensação esquisita. Era como se estivesse a penetrar num mundo totalmente estranho e desconhecido.

Os cães estavam de facto em casa, em frente de um prato com carne, onde comiam ambos, um ao lado do outro. As duas senhoras pararam atrás e observavam, caladas.

— Bem, mas agora já chega! — disse a Sr.ª Vitória a Tasso, algum tempo depois. — Não vais comer tudo ao Niki! Além disso, tens de o convidar para vir a nossa casa!

Agarrou-lhe na coleira e levou-o. A Sr.ª Maria acompanhou-a até ao buraco na vedação.

— Já que sou eu a responsável pela vedação — disse — vou mandar arranjá-la.

— Isso vai custar muito dinheiro — disse a Sr.ª Maria.

— O que tem de ser, tem de ser — respondeu a Sr.ª Vitória.

Niki saiu de casa a correr em direcção ao jardim da Sr.ª Vitória.

— Estes cães não respeitam fronteiras nenhumas — disse a Sr.ª Maria, sorrindo, embaraçada. — Por mim, não precisa de mandar já compor a cerca.

— Está bem, mas o que é que eu faço com ela?

— Está tão podre. Deixe-a lá!

— Os cães iam gostar… — disse a Sr.ª Vitória.

— Hum… já deixaram de ladrar. E as fronteiras não tornam maus só os animais — disse a Sr.ª Maria.

Por uns instantes, a Sr.ª Vitória olhou em volta, e depois perguntou:

— Já tomou o pequeno-almoço?

— Eu não, só o cão — respondeu a Sr.ª Maria.

— Então venha! O meu café ainda está quente.

Wilhelm Meissel

Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação


endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/09/01/a-cerca-wilhelm-meissel/

imagem: gabriellacustico.wordpress.com


19 comentários:

Vila das Amigas disse...

Oi Jorge,
Que linda essa historinha.Temos muito, ainda, que aprender.
Abraços,
Elizabeth

Bloguinho da Zizi disse...

Lindo, lindo, lindo
Gostoso de ler, exemplo pra aprender.
Ótima postagem, Jorge.
Sou grata
beijinhos e bom fim de semana

Jorge disse...

Elizabeth
também gostei. Ainda carregamos certas cercas em nós impedindo melhor relacionamentos. Talvez a cerca seja o medo, receios, insegurança.

Minha amiga, um beijo,
Jorge

Jorge disse...

Zizi
Legal mesmo para ler. E para refletir!

Um ótimo fim de semana!!!!
Beijo!!!

*Teresa Cristina* disse...

Lindo post!!!
Compartilharei com os amigos se vc liberar=D
Bjss e bom FDS*Ü*

Jorge disse...

Olá, Teresa

Fique à vontade. Nada melhor que compartilhar mensagens com amigos!!!

Beijo e FDS!!!
Jorge

Julimar Murat disse...

Oi querido amigo

lindo texto
nos traz reflexões profundas no que diz respeito as fronteiras que colocamos em nossa vida impedindo das pessoas se aproximarem.
Nossos medos, anseios, frustrações, inseguranças que nos impedem de sermos felizes de verdade.
Não há felicidade se não houver entrega...
não há amor se não houver entrega...
não há paz se não houver entrega...
não há confidencias se não houver entrega...
e não seremos totalmente felizes se não nos entregarmos.

Um grande beijo, muita luz e muita paz

Julimar

Norma Villares disse...

Pura Beleza!
Muito bonito esse texto, e a vida mostra que é assim mesmo, precisamos de alguns abrir as fronteiras para usufruir a fratern idade. Bom partilhar.
Grande iluminação para sua vida.
Que Deus te abençoe!
Sublimes abraços.

ஜSaraஜ disse...

Oi Jorge!
Linda mensagem...
Devemos ter muito cuidado com os nossos "pré" conceitos...Muitas pessoas podem nos surpreender positivamente.
Um Excelente fds à você.
Um abraço.

Vida*** disse...

Estamos muito presos a preconceitos. Infelizmente nos libertar não é tão simples assim. Mas tentamos tdos os dias ser um ser humano melhor. Mesmo nos esbarrando por vezes a ignorância de nós mesmos. Entregar-se ao Amor,A fraternidade,A Paz,A amizade...requer conhecimento de nós mesmos e confiança. Uma vez que confiamos...não existe nada que faça com que nos separe. Aprendizado constante em cda segundo de nossas vidas!! Abços de luz.

Jorge disse...

Juli, Doce amiga,
Sem entrega não somos nós.E sim, uma máscara que criamos para não sofrermos.

Anjo, um ótimo fim de semana!!
Beijo!!!

Jorge disse...

Norma,

Uma das coisas mais difíceis de conseguirmos é romper a nossa própria cerca. Queremos, isto sim, que os outros abram a porteira para nós adentrarmos.
Anjo, um ótimo FDS!!!

Beijo!

Jorge disse...

Sara, doce anjo,

O pré conceito faz parte da nossa ignorancia espiritual. Mais fácil do que buscar compreender o próximo. Mas claro, não gostamos de ser pré julgados também.

A vida nos mostra a beleza que ela pode ser conhecendo as pessoas porque como vc mesma diz, elas podem nos surpreender positivamente.

Amiga do coração,
um ótimo fds também!!!
Beijo!!!

Jorge disse...

Vida!!

Quando conquistamos vitórias sobre nós mesmos, jamais perdemos. Derrubarmos a cerca seria algo que, com consciência, não construiríamos de novo. Descobrimos que vale a pena abrir o coração e sentir as pessoas.

Minha amiga, tenha um fds de muita luz e alegria!
Beijo!

Jeanne disse...

Jorge, hoje estou passando só para desejar um ótimo domingo e te deixar um abraço.
Beijos :)

Marcia disse...

Bom dia querido amigo!!!
É, o que nos separa das pessoas na maioria das vezes sao os nossos "pré-conceitos", e quanto tempo se perde....neste caso, quanto tempo as duas poderiam ter feito companhia uma a outra?!
E os caes?! Um belo exemplo para a nossa reflexao!
Beijos e um bom final de semana.

Marcia disse...

Obrigado pelas visitas sempre queridas aos meus blogs!!!
Tenha um lindo domingo!

Jorge disse...

Jeanne,
para você uma excelente semana!!
Com carinho,
Jorge

Jorge disse...

Marcia
Os cães são quase sempre, exemplos para nós. Que bom se os homens pudessem observar os cães e comparar suas atitudes.

Munha amiga de longa data, uma incrível semana prá você!!

Eu que te agradeço pela tão luminosa visita a este cantinho.

Beijo, de coração,
Jorge

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