sábado, 5 de junho de 2010

ALTA COMO UMA ESTACA


Alexandra arranca os ganchos coloridos do cabelo preso e solta-o.

Nem aos ombros lhe chega. Não é comprido nem curto nem nada bonito.

— Buu!! — Alexandra faz uma careta para a sua imagem no espelho. O cabelo faz lembrar as repas do seu cão Bitó.

A um galgo até ficam bem. A Alexandra, não.

Nem sequer tem uma cor definida o cabelo de Alexandra. Não é loiro nem castanho. Está entre o loiro escuro e o castanho claro.

Furiosa, Alexandra agarra no sabonete molhado que está pousado em cima do lavatório e besunta o espelho todo com riscas cor-de-rosa diagonais, sobre a imagem da sua cara.

Alexandra não se suporta a si própria.

Nem aos seus olhos azul pálido.

Gostava era que fossem castanho escuro, como os de Manuela, a vizinha do lado.

Pior do que as repas à cão e dos olhos azul claro é a sua altura. É um palmo mais alta do que o maior rapaz da turma. Ainda ontem o pai tornou a dizer:

— A Alexandra cresce como um pé de feijão: cada vez mais!

E o que hão-de dizer os familiares que não vêem Alexandra há muito tempo?

— Meu Deus! Cresceu tanto! Daqui a pouco estás maior do que nós!

Ainda bem que não dizem:

— Olá, girafa, como estás!?

Durante a noite, Alexandra sonha que tem uns pés muito pequeninos e umas pernas curtas, mas um pescoço enorme, enorme como um campanário e, bem lá no cimo, balança uma cabeça pequena. Vê-se a correr por uma praça fora com muita gente atrás dela, mas não consegue esconder-se em lado nenhum.

O pior é quando recebem visitas que nunca tinham visto Alexandra.

— Aah! — costumam dizer à mãe, e depois fazem uma pequena pausa. — Então esta é que é a tua filha!…

E soa como se dissessem: então este é que é o camelo de quem se fala na família e entre os amigos.

Alexandra exagera um bocadinho. Como não gosta de si, põe na boca dos outros a ideia que tem de si.

É certo que Alexandra é alta para a idade, mas não é uma girafa, um camelo ou um dinossauro. Dinossauro, acabou agora mesmo de inventar.

E hoje gostava de estar especialmente bonita. Para o engraçado do tio Ralph que, passados quatro anos, os visita de novo em Viena. O tio Ralph vive em Londres e está casado com a irmã da mãe.

Mas, quando vir Alexandra, também ele vai, com certeza, dizer:

— Então esta é que é a pequena Alexandra?

Ela não tem nada de que se possa gostar à primeira vista. Não é pequena nem graciosa como a Manuela do lado. Não tem olhos escuros nem cabelos bonitos como os de Manuela, castanhos cor de avelã. Alexandra é um feijão e os feijões não são dignos de apreço.

Para além do papá e da mamã, mais ninguém é carinhoso para com feijões. Alexandra vê muito bem a diferença de trato em relação à Manuela do lado. Se cá vem quando estão com visitas, as visitas ficam logo com os olhos a brilhar, embora ela nem pertença à família.

Abraça-se a Manuela, até se lhe faz festas no cabelo e pergunta-se-lhe o nome, como se isso fosse de uma grande importância.

Na semana passada, na aula de Desenho, Alexandra teve de fazer um auto-retrato, mas a folha era muito pequena. Começou em baixo, pelos pés, e ainda só ia na testa quando o papel acabou, em cima. Já não houve espaço para o cabelo, e assim teve de ficar careca.

De algum tempo para cá, adoptou uma má postura: um pouco inclinada para a frente, os ombros ligeiramente encolhidos, as costas um pouco curvadas. Nesta posição, Alexandra parece uns bons dois centímetros mais pequena do que aquilo que realmente mede.

Quando, na aula, é chamada ao quadro, encolhe ainda um pouco a cabeça e avança com a nova postura de “dois centímetros a menos”. Corada, à frente do quadro preto esverdeado, sendo a única de pé no meio dos outros vinte e três colegas sentados, parece-lhe ser maior do que nunca. Por isso, dobra ainda imperceptivelmente os joelhos, o que lhe retira mais meio-centímetro.

Esse meio-centímetro faz muito bem à auto-estima de Alexandra.

A mãe põe a mesa para a chegada do tio Ralph.

— A Manuela não pode vir cá hoje, quando o tio Ralph cá estiver! Pelo menos hoje, queremos estar a sós com ele — diz Alexandra.

A mãe tira uma pétala amarela a uma rosa.

— Também acho melhor. Agora que o Ralph acaba de chegar. Mas diz lá… — a mãe vira-se para Alexandra. — Discutiste com a “Manni”?

— Não…sim… — Alexandra não quer, de modo nenhum, revelar o verdadeiro motivo: Manuela tem olhos castanhos- scuros e o cabelo cor de avelã, e é pequena e delicada. O tio Ralph nem devia vê-la pela frente. Pelo menos, por enquanto.

— Mas é grave? — pergunta a mãe. — A Manni é sempre tão querida. O que é que se passa entre vocês as duas?

— Ah, não é nada — abandona a sala apressadamente.

“Manni” … Aqui está outra coisa enjoativa. “Manuela” é muito mais bonito do que aquele diminutivo, que é mesmo estúpido. Ainda assim… “Manni” é um nome carinhoso, uma coisa para meninas pequenas, queridas, delicadas.

Só os pais é que a tratam por “Xana”. Mais ninguém se lembraria de lhe dar um nome pequeno. Um nome comprido, com imensas letras, assenta como uma luva a um longo pé de feijão.

— Põe os ganchos do cabelo — aconselha a mãe de Alexandra, assim que a filha volta à sala. — Pelo menos os cabelos parecem em ordem. Se o avião de Londres tiver aterrado a horas, o pai pode chegar aí com o tio Ralph a qualquer momento.

— Fico mal com os ganchos!

De repente, sente os olhos marejados de lágrimas. A mãe não dá conta porque está de costas, a pôr a mesa. De repente, Alexandra ganha raiva também à mãe, que põe a mesa, que dobra os guardanapos em leques azuis claros e que arranja as flores da jarra para que pareçam bonitas vistas de qualquer lado.

“Bem posso compor-me quanto quiser”, pensa Alexandra. “Com ou sem ganchos fico sempre sem graça nenhuma.”

Olha! Aquela é a voz do tio Ralph, com o seu inglês engraçado, todo enrolado. A porta vai abrir-se a qualquer momento.

Alexandra corre para a casa de banho, pega nos ganchos em forma de rosa e prende-os no cabelo, de ambos os lados.

Ao menos os ganchos são bonitos!

— Olá! — grita a mãe abraçando o cunhado.

O tio Ralph pousa a pesada mala preta, deixa descair dos ombros o saco de desporto de onde sai uma raquete de ténis.

Great to be back home — exclama, como se a sua casa fosse ali e não em Inglaterra. Com o tio Ralph, uma pessoa sente-se logo à vontade! Ri muito e sabe montes de boas anedotas. Até anedotas para crianças.

Está moreno e, com o bigode crescido dos lados, parece-se um pouco com um leão marinho.

Alexandra observa o tio Ralph do vestiário, onde se escondeu até se decidir ir cumprimentá-lo. Dantes, quando era pequena, corria para ele de braços abertos.

Hoje, não está para corridas. O tio Ralph ainda se assusta ao ver uma coisa tão alta a correr para ele…

Um pé de feijão não corre.

And where is little Alexandra? — pergunta o Tio Ralph, procurando-a com o olhar à sua volta.

Alexandra estremece.

— Bem — diz o pai, não sem orgulho. — Até vais admirar-te. Da little Alexandra fez-se uma grande Alexandra. Espero, caro Ralph, que, a partir de hoje, fales alemão! O meu inglês não vai além de good morning e good evening.

Okay! Então, onde está a Alexandra? — a forma como o tio pronuncia soa a “Aleksandruá”!

Devagarinho, Alexandra sai da meia-escuridão e dirige-se ao tio na sua postura de “dois centímetros e meio a menos”.

Ele abre os braços cheio de uma alegria efusiva. É bonito porque o tio Ralph “esmaga-a” exactamente como dantes.

My goodness! — espanta-se — What a big girl! Mas que alta que estás!

Os cantos da boca de Alexandra encolhem-se e descaem.

Like a mannequin!! — acrescenta tio Ralph radiante.

Da forma como o tio pronuncia a palavra estrangeira, ela não pode significar nada de feio. Nenhuma girafa, nenhum dinossauro.

Ele diz: “man’cã” e pronuncia as últimas sílabas pelo nariz como se estivesse constipado.

A mãe ri porque reparou na expressão de surpresa e confusão de Alexandra.

Mannequin é uma palavra francesa — explica — Já te contei uma vez que a minha irmã Deborah fazia desfiles. Era manequim.

— Ah! — diz Alexandra.

Antes de poder continuar a falar, o Tio Ralph fá-la girar sobre si mesma, observa-a de todos os lados e prega-lhe na testa um beijo áspero por causa do bigode.

— Asseguro-vos — repete — que vai ser igualzinha à minha Deborah. Até tem os mesmos olhos claros! Beautiful blue eyes!!

Alexandra não cabe em si de espanto. Que surpresa! Abre bem os olhos azul-água porque assim parecem mais azuis e de certeza que ficam mais bonitos.

O pai dá pancadinhas na cara de Alexandra. É o que faz quando está orgulhoso dela, mas Alexandra não suporta aquilo. Já não é nenhum bebé. E agora muito menos.

É uma futura manequim.

— Bem, e agora vamos merendar. Tens de descansar da viagem — diz a mãe.

— Anda cá! — o tio Ralph chama Alexandra com um gesto. — Senta-te à minha beira!

Durante a merenda, Alexandra desabrocha como um pé de feijão, que cresce muito direito, com muitos rebentos brancos. Alexandra sente-se outra.

O tio Ralph segura-lhe na mão o tempo todo, excepto quando empurra com o polegar um pedaço de bolo para o garfo.

— Lá — diz, referindo-se a Londres — muitas raparigas são altas. Altas e elegantes como Alexandra mas não tão bonitas! — e pisca o olho esquerdo. — Mas os vienenses são todos uns arõezinhos!

— Anõezinhos — corrige-o o pai.

Depois do leite achocolatado, Alexandra levanta-se e dirige-se ao quarto de banho, de costas direitas, ombros direitos e com os seus dois centímetros e meio novamente recuperados.

Vai direita ao espelho e apaga, com uma toalha húmida, as riscas de sabão.

O reflexo de Alexandra no espelho vai-se tornando mais nítido. Vê os seus olhos azul-água e sorri, radiante, para a sua nova imagem.

Alexandra tira os ganchos do cabelo. Não precisa deles. Assim também é bonita.

O tio Ralph foi muito, muito simpático para com ela, segurou-lhe na mão e disse-lhe que era bonita. E em Londres toda a gente é alta. E elegante.

“Afinal”, pensa Alexandra, “sempre vou dizer à Manuela que venha cá hoje.”

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Texto adaptado



endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/07/17/alta-como-uma-estaca-evelyne-stein-fischer/

imagem: bruxinhasde hogwarts2.vilabol.uol.com.br


18 comentários:

Cigana do Oriente disse...

Uma bela lição de vida! Muitas vezes construímos uma imagem negativa de nós mesmos, realçando nossos defeitos como se fossem uma coisa de outro mundo, quando na verdade para outros são qualidades.
Assim também se dá com nosso interior, temos uma certa mania de construirmos uma imagem de nós mesmo que não é a realidade, por isso a importância de sempre pedirmos aos verdadeiros amigos que dêem sua opinião, mesmo sendo críticas sempre nos trazem uma boa idéia de que imagem passamos.
Bom fim de semana pra você e pra todos do blog
Beijos da Cigana!

Eliana Pessoa disse...

hummm bela história adorei tem dias que precisamos de um tio desses em nossas vidas!!!
beijo

Jorge disse...

Cigana linda,

Complexo de inferioridade é algo muito triste. Reflete no comportamento e atrapalha a vida.

Anjo, tenha um fim de semana de muita alegria!!!

Jorge disse...

Eliana,

É mesmo!!!!

Um doce beijo, Anjo!!!

Lídia Borges disse...

Li todo o texto. Tenho uma filha chamada Alexandra, mas é "baixinha". A mais pequena do grupo. Felizmente não tem problemas de auto-estima.

Gostei muito do texto!

L.B.

Jorge disse...

Lidia,

o mais importante é o equilíbrio. Torna uma pessoa mais feliz consigo mesma.

Obrigado pela sua visita!!!

Beijo!!!

Maria José disse...

Jorge. Que bela história!!! Muitas adolescentes precisam ler este texto. Nós precisamos acreditar em nós mesmos, procurar ter a auto-estima elevada e não, seguirmos os padrões impostos pela mídia. Precisamos agradecer diariamente este corpo que nos foi emprestado para esta reencarnação e cuidarmos carinhosamente dele. Adorei o texto. Beijos e um ótimo domingo.

Bloguinho da Zizi disse...

Ah, amigo Jorge
Eu precisava de um tio desses na minha infância/adolescência.
Um dia te conto minha história.
Um domingo iluminado pra vc.
Beijinho

Jorge disse...

Maria José,

Temos que orientar os jovens para se encararem. Estimular viver apenas a superfície de si mesmo poderá ter consequências complicadas, para o jovem.
Cuidar do jovem hoje em suas carências e dificuldades é ter adultos amanhã maduros.

Anjo, beijo, de coração!!

Jorge disse...

Zizi,
Passamos por problemas de auto identificação quando jovem provavelmente por deficiência em algo no seuncrescimento. Pode ser a educação, traumas que bloqueim jovens em seus potenciais necessitando de estímulos (tio) para seu auto-domínio e de auto-valorização.

Minha amiga, um beijo!!!

Mara Virginia disse...

Muito bom o texto, as pessoas só podem amar o seu semelhante se antes de tudo amar a si mesmo, olhar-se no espelho e se achar bonita, cuidar do corpo e do espírito, porém tudo é uma questão de amadurecimento metal e espiritual....

muita paz! e bjos fraternos

Mara

ValériaC disse...

Lindo demais este texto querido amigo!
Aceitar-se, quase sempre tão complicado...
Cada um tem sua própria beleza peculiar...e todos deveriam ser vistos como únicos, pois assim o somos na verdade....sem comparações...
E elogio, deveria ser algo feito com mais freqüência entre as pessoas...por pequenino que fosse...pois mesmo que pequeno, faz grandes benefícios...cada um melhora na direção em que é elogiado, se assim o for.

Sereno e feliz domingo amigo!
Beijos
Valéria

Julimar Murat disse...

Querido amigo Jorge

tenho estado em falta com voce e com outros amigos que por falta de tempo tenho me ausentado deste gostoso espaço.
Tenho recebido seus comentarios, seu carinho e sua luz que me aquece o coração.

Voce sempre com lindas mensagens que nos leva a refletir sobre nossos comportamentos e nossas atitudes perante a nossa vida.

Obrigada meu amigo e muita luz na sua vida

Beijos

Julimar

Jorge disse...

Mara,

concordo com você!!!

Um beijo, Anjo!!!

Jorge disse...

ValeriaC

Estamos no processo de amadurecimento. Para tanto, passamos pela imaturidade, aos tropeços para depois, e em consequência disso, Amadurecermos.
Mas isso leva tempo, né?

Um doce beijo!!!

Jorge disse...

Juli, grande amiga!!

O mais importante é você estar bem. Todo o resto se encaixa assim.
E agradeço por você me colocar como amigo o que me deixa imensamente feliz!!!

Um super beijo e tenha uma ótima semana!!!

Jeanne disse...

Tudo depende do grupo onde está a pessoa. Sempre me achei muito branca, até ver fotos de um colega que foi à Alemanha,rsrsrs
Cada um tem o corpo perfeito para sua evolução, seja alto, baixo, magro, gordo, amarelo, preto, perfeito ou não.
Beijos

Jorge disse...

Jeanne,
e aumenta para quem tem comp´lexo de inferioridade. Mas todas as diferenças é que fazem do ser humano, criaturas únicas.

Um beijo, Anjo!!!

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