quarta-feira, 12 de maio de 2010

A CIDADE DOS POÇOS


Aquela cidade não era habitada por pessoas, como todas as outras cidades do planeta.
Aquela cidade era habitada por poços. Poços vivos… mas afinal poços.
Os poços distinguiam-se entre si não somente pelo lugar onde estavam escavados, mas também pelo parapeito (a abertura que os ligava ao exterior).
Havia poços ricos e ostensivos com parapeitos de mármore e metais preciosos; poços humildes de tijolo e madeira, e outros mais pobres, simples buracos rasos que se abriam na terra.
A comunicação entre os habitantes da cidade fazia-se de parapeito em parapeito, e as notícias corriam rapidamente de ponta a ponta do povoado.
Um dia, chegou à cidade uma «moda» que certamente tinha nascido nalgum pequeno povoado humano.
A nova ideia assinalava que qualquer ser vivo que se prezasse deveria cuidar muito mais do interior do que do exterior. O importante não era o superficial, mas o conteúdo.
Foi assim que os poços começaram a encher-se de coisas.
Alguns enchiam-se de jóias, moedas de ouro e pedras preciosas. Outros, mais práticos, encheram-se de electrodomésticos e aparelhos mecânicos. Outros ainda optaram pela arte, e foram-se enchendo de pinturas, pianos de cauda e sofisticadas esculturas pós-modernas. Finalmente, os intelectuais encheram-se de livros, de manifestos ideológicos e de revistas especializadas.
O tempo passou.
A maioria dos poços encheu-se a tal ponto que já não podia conter mais nada.
Os poços não eram todos iguais, por isso, embora alguns se tenham conformado, outros pensaram no que teriam de fazer para continuar a meter coisas no seu interior…
Um deles foi o primeiro. Em vez de apertar o conteúdo, lembrou-se de aumentar a sua capacidade alargando-se.
Não passou muito tempo até que a ideia começasse a ser imitada. Todos os poços utilizavam grande parte das suas energias a alargar-se para criarem mais espaço no seu interior. Um poço, pequeno e afastado do centro da cidade, começou a ver os seus colegas que se alargavam desmedidamente. Ele pensou que se continuassem a alargar-se daquela maneira, dentro em pouco confundir-se-iam os parapeitos dos vários poços e cada um perderia a sua identidade…
Talvez a partir dessa ideia, ocorreu-lhe que outra maneira de aumentar a sua capacidade seria crescer, mas não em largura, antes em profundidade. Fazer-se mais fundo em vez de mais largo. Depressa se deu conta de que tudo o que tinha dentro dele lhe impedia a tarefa de aprofundar. Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo…
A princípio teve medo do vazio. Mas, quando viu que não havia outra possibilidade, depressa meteu mãos à obra.
Vazio de posses, o poço começou a tornar-se profundo, enquanto os outros se apoderavam das coisas das quais ele se tinha despojado…
Um dia, algo surpreendeu o poço que crescia para dentro. Dentro, muito no interior e muito no fundo… encontrou água!
Nunca antes nenhum outro poço tinha encontrado água.
O poço venceu a sua surpresa e começou a brincar com a água do fundo, humedecendo as suas paredes, salpicando o seu parapeito e, por último, atirando a água para fora.
A cidade nunca tinha sido regada a não ser pela chuva, que na verdade era bastante escassa. Por isso, a terra que estava à volta do poço, revitalizada pela água, começou a despertar.
As sementes das suas entranhas brotaram em forma de erva, de trevos, de flores e de hastezinhas delicadas que depois se transformaram em árvores…
A vida explodiu em cores à volta do poço afastado, ao qual começaram a chamar «o Vergel».
Todos lhe perguntavam como tinha conseguido aquele milagre.
— Não é nenhum milagre — respondeu o Vergel. — Deve procurar-se no interior, até ao fundo.
Muitos quiseram seguir o exemplo do Vergel, mas aborreceram-se da ideia quando se deram conta de que para serem mais profundos, se tinham de esvaziar. Continuaram a encher-se cada vez mais de coisas…
No outro extremo da cidade, outro poço decidiu correr também o risco de se esvaziar…
E também começou a escavar…
E também chegou à água…
E também salpicou até ao exterior criando um segundo oásis verde no povoado…
— Que vais fazer quando a água acabar? — perguntavam-lhe.
— Não sei o que se passará — respondia ele. — Mas, por agora, quanto mais água tiro, mais água há.
Passaram-se uns meses antes da grande descoberta.
Um dia, quase por acaso, os dois poços deram-se conta de que a água que tinham encontrado no fundo de si próprios era a mesma…
Que o mesmo rio subterrâneo que passava por um inundava a profundidade do outro.
Deram-se conta de que se abria para eles uma vida nova.
Não somente podiam comunicar um com o outro de parapeito em parapeito, superficialmente, como todos os outros, mas a busca também os tinha feito descobrir um novo e secreto ponto de contacto.
Tinham descoberto a comunicação profunda que somente conseguem aqueles que têm a coragem de se esvaziar de conteúdos e procurar no fundo do seu ser o que têm para dar…


Jorge Bucay

Contos para pensarCascais,

Editora Pergaminho, 2004



IMAGEM: Internet


19 comentários:

Bloguinho da Zizi disse...

Lindo, não é Jorge?
Sinto que encontrei uma comunidade de poços quando entrei no mundo dos blogs. Vamos nos comunicando profundamente, sem preocupação com o suplérfluo e, assim, muitos poços vão se juntando, alimentando-se do grande rio subterraneo.
Gratidão meu amigo
Zizi

Jorge disse...

Zizi,
ótima maneira de colocar o texto.
Gostei mesmo!!!

Beijo, com carinho!!!

*Teresa Cristina* disse...

Oiee Jorge!!
Se comunicar de parapeito....é uma comunicação tão superficial mas qdo se encontra o segundo ponto de comunicação, se encontra tudo...pq vc acaba se mostrando quem realmente é...sua essência.Lindo!
Td de bom pra ti.
bjs

Jorge disse...

Teresa,

ligação pela água, que é vida!!!

Amiga Anjo, beijo!!!

Cigana do Oriente disse...

Hoje eu tenho que tomar uma decisão muito importante, lendo essa mensagem encontrei as respostas que eu precisava, Namastê!

ValériaC disse...

Lindo demais este texto...uma mensagem grandiosa... sejamos sim profundos...nos liguemos com o que trazemos de melhor em nós aos outros...compartilhar riquezas interiores é sempre bom demais.
Beijos no seu coração amigo...

Valéria

Jorge disse...

Cigana, boa noite!!

Que bom, né??

Beijo, de coração!!!

Jorge disse...

ValeriaC, Anjo amiga

Importante o compartilhar. No fundo de nossas almas estão os mais belos tesouros para tanto. Vamos até lá para sermos a essência!!!

Anjo, beijo, sempre!!!

ELEONORA disse...

Jorge querido, lindo conto.

"Se quisesse ser mais profundo, seria necessário esvaziar-se de todo o conteúdo…"

Eis ai a grande dificuldade....
Nossa sociedade do "acúmulo" teme o vazio. É prisioneira do apego.

Lembrei agora de uma música do Gil:

"É sempre bom lembrar, que um copo vazio, está cheio de ar..."

Se nos esvaziamos, nos preenchemos de possibilidades.

Vencer o medo do vazio, entregar-se, mergulhar no caos, eis o grande desafio para o nascimento da vida.

Grande beijo em seu coração iluminado.

Marcia disse...

Bela mensagem passa o texto. Para encontrarmos nossos verdadeiros tesouros que sao os da alma, temos que ir a fundo, bem no fundo dos nossos coracoes, nos despirmos, -ou esvaziarmos dos superfluos, e dar espaco para os verdadeiros tesouros que Deus colocou em nós; e que, ao mergulharmos na matéria, nos confundimos e iludindo com o que nossos olhos vêem.
Obrigado. Beijos e muita luz.

Marcia disse...

-Corrigindo: ...nos confundimos e nos iludimos com o que nossos olhos vêem.
Beijos, e um lindo dia Jorge!

Jorge disse...

Eleonora, anjo amiga,

Nos esvaziarmos do nosso ego para ir fundo ao nosso self. Como nos harmonizarmos com tantos detritos na nossa alma? à medida que, com coragem, vamos nos aprofundando e vendo as coisas desnecessária que guardamos, vamos tendo a condição de ir esvaziando e ao mesmo tempo preenchendo de tesouros que que a traça não corroi.

Anjo, um doce beijo!!

Jorge disse...

Marcia,

parece que só percebemos o superfluo na espiritualidade. Refazemos as escolhas, modificamos a nossa visão e reencarnamos com novas propostas. E aqui, esquecemos disso e lá vamos novamente acumulando em nosso coração os tais superfluos.
Complicado, né?

Amiga d'alma, beijo no coração!!

Maria José disse...

Jorge. Compartilhar conhecimento, experiência, vivência... é enriquecedor. Dessa forma, crescemos, evoluimos. É o que fazemos também no mundo dos blogs. Beijos e obrigada sempre por sua participação tão amiga no Arca.

Jorge disse...

Maria Jose,
compartilhar significa também humildade.

Anjo, muito beijos no coração!!!

Jeanne disse...

Jorge, ainda estou no vazio! Tirei o que não servia mas ainda procuro o que colocar no lugar.
Aliás, estou colocando, mas leva tempo, muito tempo...
Beijos

Sara disse...

Jorge;
Linda Postagem...Belíssima reflexão!
Bjs Querido.

Jorge disse...

Jeanne,

Força que tens, minha flor. Porque eu ainda estou esvaziando devido a excesso de entulhos. Mas chego lá também!!!
Anjo, beijo, de coração!!!

Jorge disse...

Sara, Anjo Mineira

é mesmo, né?

beijos para você também, Anjo!!!

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