segunda-feira, 20 de abril de 2009

A ESPERANÇA NUNCA MORRE


O asilo de idosos recebeu naquela manhã mais uma senhora.

Chegou calada, sentou-se em uma cadeira de rodas e mergulhou em lágrimas. O semblante traduzia a desesperança e a mágoa pelo abandono. Notava-se que o seu único intuito era aguardar a morte. Parecia que a sua volta tudo já morrera, igualmente.

Foi então que um jovem, que costumava visitar os idosos com regularidade, se aproximou. Tentou conversar. Mas ela se mantinha calada, num protesto mudo de rejeição aos homens que a haviam deixado ali. Longos suspiros escapavam do seu peito e as lágrimas rolavam, silenciosas. O rapaz brincou, perguntou e insistiu. Ela não conseguiu resistir. Sorriu e acabou por contar a triste história de sua vida.

Fora uma mulher muito rica. Com o marido, administrava sete fazendas. Com a morte dele, ela assumira os compromissos, ao tempo que cuidava da única filha. Quando a filha se casou, estranhamente foi se acercando da mãe. Começou a se interessar pelos negócios. Depois, foi a vez do genro. Tarefas divididas. Esforços somados.

Ela pensava em como tudo, um dia, deveria ficar para a filha e os netos. Talvez ela, em sua velhice, pudesse realizar algumas viagens que nunca se permitira. Aos setenta e dois anos, por insistência da filha, passou-lhe uma procuração, concedendo-lhe amplos poderes. Fora seu erro. Em plena posse de tudo o que um dia seria seu por direito, a filha aliou-se ao marido e em doloroso processo, conseguiu que a mãe fosse declarada incapaz.

Por fim, a colocaram naquele asilo, sem recursos. Não era para morrer de desgosto? Concluiu a senhora. O jovem, reconhecendo nela os valores da liderança, da capacidade de trabalho, lhe falou do quanto ela poderia enriquecer outras vidas. Ela era uma pessoa com experiência administrativa.

Por que não se dispor ao trabalho naquela instituição, auxiliando o serviço de voluntários e funcionários?

Por que não reunir aqueles idosos todos, sem esperança, e lhes falar da terra, de grãos, produção, gado, semeaduras?

Afinal, muitos deles vinham do campo e com certeza gostariam de ouvir sobre o que fora a tônica das suas vidas, por um largo tempo.

Ela ouviu, ouviu e aceitou a idéia.

Levantou-se da cadeira de rodas onde se jogara e começou a agir.

Sua filha e seu genro lhe haviam usurpado os bens, arrancando-lhe as possibilidades de viver como desejasse.

Mas não podiam lhe destruir as conquistas interiores.

Ela tinha valor e esse valor podia ser usado em prol de outros desesperançados.

Ergueu-se, sacudiu a poeira da mágoa e começou a fazer sol em outras vidas, inundando-se de luz.

***

Se você está triste porque foi abandonado, lembre-se dos que nunca tiveram família, lar e afetos. Se você está magoado porque lhe feriram, não permita que isso destrua o restante da sua vida. Ninguém lhe pode tirar as conquistas realizadas, os talentos conseguidos e a imensa capacidade de amar que temos todos nós, espíritos imortais, filhos de Deus.


(texto da equipe de redação do Momento Espírita)



quarta-feira, 15 de abril de 2009

OS HOMENS-ILHA


As cidades têm conhecido, através do tempo, modalidades diversas de diferenciação social. Nos tempos de hoje, às portas do novo milénio, podemos afirmar, convictamente, que o projecto de modernidade invadiu tudo e todos. Apesar de tal afirmação não poder ser contestada nem pelos mais críticos, devemos ter também consciência dos custos dessa modernidade.
Com efeito, em termos sociais tem existido também uma evolução, mas no sentido inverso ao desejado. As assimetrias, cada vez mais têm sido postas em relevo, de tal modo, que, hoje, a cidade está cheia de “ilhas de exclusão”, bem visíveis, mesmo aos olhos dos menos atentos. Ilhas onde vivem seres humanos, afinal homens que também merecem ter oportunidades para serem felizes. Homens que aguardam a sua vez para fugir ao estado de Exclusão Social a que foram “condenados” por alguns daqueles que vivem no exterior dessas ilhas. Homens que aguardam o auxílio de outros homens, afinal seus companheiros da viagem.
De acordo com esta realidade, os rostos excluídos vão-se multiplicando a um ritmo assustador, que vão tornando a viagem, que se pretendia harmoniosa e bonita, carregada de contornos sombrios onde cada vez menos se sorri.

Paulo Alexandre Brito Pais Gaspar

In: As cidades e os rostos da exclusão
Universidade Portucalense – Educação Social, Porto, 1999

domingo, 12 de abril de 2009

ALGUNS E NÓS


Nunca influenciaremos a todos,

Mas sempre influenciaremos alguns.

Reflitamos no assunto,

Revendo o que transmitimos.

A descrença suscita a descrença,

A dúvida gera a dúvida.

O desânimo sugere o desânimo,

A tristeza espalha a tristeza.

A fé atraí a fé,

A esperança acende a esperança.

A bondade cria a bondade,

O amor estende o amor.



imagem: Internet

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A ROUPA DE GANDHI


Mahatma Gandhi só usava uma tanga a fim de se identificar com as massas simples da Índia, pra ele as vestimentas nunca foram importantes.

Certa vez ele foi convidado pelo governador inglês para uma festa beneficente e chegou vestido como de hábito, como uma tanga.

Os criados vendo-o não o deixaram entrar, pois era uma festa de gala.

Ele tranqüilamente, voltou para casa e enviou um pacote ao governador, por um mensageiro. Dentro continha um terno.

O governador ligou para a casa dele e lhe perguntou o significado do embrulho.

O grande homem respondeu:- Fui convidado para a sua festa, mas não me permitiram entrar por causa da minha roupa. Se for a roupa que vale, eu lhe enviei o meu terno.

Desta forma, Mahatma Gandhi provou que a "roupa não faz o homem"... e nós ainda temos o hábito de "olhar" as pessoas pela sua maneira de vestir ou calçar, ou seja, continuamos vendo o externo, sem nos importar o conteúdo.



imagem: Internet

quinta-feira, 2 de abril de 2009

QUERO SILÊNCIO


ANNA VERONICA MAUTNER

Silêncio. Silêncio, por favor. Psiu. Gritamos e colocamos janelas à prova de som, paredes almofadadas, tapetes, forros etc. O barulho de construção, de serra elétrica, de motores de carro, de buzinas -é o preço da modernidade, mas não é sobre isso que eu quero falar, e sim sobre o barulho humano de crianças e jovens. Quero falar dos sons das gentes.
Há anos, fala-se sobre a dificuldade de conciliar modernidade com ausência de silêncio e falta de espaço. Amplo espaço silencioso virou artigo de luxo.Contudo, tenho que confessar que somos nós, adultos, que liberamos e orquestramos esse inferno em que o barulho humano transformou o nosso mundo. Assentimos que ruídos ensurdecedores feitos por crianças, jovens e jovens adultos dominem.
Existem certos recintos que não conseguimos evitar, e, assim, ninguém consegue um encontro consigo mesmo, que sem silêncio é impossível.Nada contra a alegria e tudo contra o som pelo som, só para fazer companhia e evitar esse encontro. Musiquinha de fundo invade o planeta. Ficamos sem refúgio. Solidão e silêncio viraram palavrão?
Creiam-me, mesmo em hotéis grandões, é difícil encontrar lugar onde a criança entra sem fazer barulho. Só no bar, onde o escurinho à meia-luz é sinal, aliás o único respeitado pelas crianças. Em todos os lugares, seja ônibus, avião, lanchonete, cantina, somos envolvidos por gritos e por música, jamais por sussurros.
Como é que as crianças, as mesmas que gritam e galopam pelos corredores, conseguem manter-se em silêncio na missa, no culto, em enterros e em velórios? Como é que respeitam também o cinema?
Pode parecer até que sou contra criança, mas não sou, não, pois acho que somos nós, os adultos, por temer o silêncio, que instigamos ou deixamos o barulho vingar em volta de nós.
Quando vem uma ordem de silêncio pra valer, elas se calam e param de correr. Vivemos um momento e em um universo em que a aversão ao silêncio não se manifesta só com música de fundo, com escapamento desregulado, com os motoqueiros, mas ainda nos damos ao luxo de liberar qualquer barulhento em qualquer lugar.
O que aconteceria se, de repente, o silêncio caísse sobre nós? Respondo: discursos interiores, voz da "consciência", emergiriam. Talvez sejamos todos culpados por maus pensamentos e/ou intenções, o que nos leva a viver em permanente esquiva de nós mesmos.
Com a barulheira que nos rodeia, tornamo-nos surdos a nós mesmos. Parece que o lema atual é: evitar o silêncio é o dever de todos. Deseduquem-se os outros. Silêncio é necessário para que se possa manter os homens como seres pensantes, criativos, dotados de memória e livres do excesso de estresse.Não quero que o silêncio só exista na calada da noite, no alto das montanhas, no ermo das matas. Quero-o no contato com as pessoas queridas, ricas e coloridas -meus semelhantes. Não quero ser misantropa, quero ruído normal que me permita falar, sentir e pensar.

ANNA VERONICA MAUTNER, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)

Imagem: Internet

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