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domingo, 27 de dezembro de 2009

A HISTÓRIA DE HACHIKO

[Foto: Memorial de Hachiko na estação de Shibuya]

Todo ano em 8 de abril ocorre uma cerimônia solene na estação de trem de Shibuya, em Tóquio. São centenas de amantes de cães que se reúnem em homenagem à lealdade e devoção de Hachiko, fiel companheiro do Dr. Eisaburo Ueno, um professor da Universidade de Tóquio.

Mas, quem foi Hachiko? Que houve de tão extraordinário em sua vida para granjear a admiração e o respeito de tantos que assistem a tal reunião de caráter solene? O artigo intitulado "Velho e fiel cão espera pelo retorno do dono por dez anos", publicado na edição do Asahi Shinbun de 4 de outubro de 1933, lança luz sobre estas questões.

O texto impresso fez um registro histórico de uma das mais bonitas, se não, a mais bela e ímpar história de lealdade, fidelidade e incondicional amor de um cão para com seu dono. De tão incrível era a história contada nas entrelinhas do artigo que a atenção de todo o povo japonês se voltaria para ela; nada menos que o mundo acabaria se rendendo a tal registro épico!

Diga-se, de passagem, que a comovente história do Chu-ken Hachiko (o cachorro fiel Hachiko) rendeu um livro e um filme chamado "A História de Hachiko", mas, sobretudo, colaborou sobremaneira para que a reputação da raça se tornasse conhecida e famosa em todo o mundo, além de impulsionar um apaixonado movimento de restauração e preservação da raça Akita em seu país de origem, o Japão.

O nome do protagonista e aspirante ao estrelato da história contada pelo Asahi Shinbun, e que ficou conhecido em todo o mundo, era Hachiko, um cão branco da raça Akita; o coadjuvante, seu próprio dono, o Dr. Eisaburo Ueno.Pode-se dizer que a história toda teve seu início muito antes daquele 4 de outubro de 1933, data em que o artigo veio a público.

O "Era uma vez..." desta história teve seu ponto de partida em novembro de 1923, portanto, exatos dez anos antes. Naquele mês e ano nasceu Hachiko, na cidade de Odate, província de Akita.

Em 1924, Hachiko foi enviado a casa de seu futuro proprietário, o Dr. Eisaburo Ueno, um professor do Departamento Agrícola da Universidade de Tóquio. A história dá conta de que o professor ansiava por ter um Akita há anos, e que tão logo recebeu seu almejado cãozinho, deu-lhe o de Hachi, ao que depois passou a chamá-lo carinhosamente pelo diminutivo, Hachiko. Foi uma espécie de 'amor à primeira vista', pois, desde então, se tornariam amigos inseparáveis!

O professor Ueno morava em Shibuya, subúrbio de Tóquio, perto da estação de trem que levava (e que leva até os dias de hoje) o mesmo nome. Como fazia do trem seu meio de transporte diário até o local de trabalho, já era parte integrante da rotina de Hachiko acompanhar seu dono todas as manhãs. Caminhavam juntos o inteiro percurso que ia de casa à estação de Shibuya. Mas, ainda mais incrível era o fato de que Hachiko parecia ter um relógio interno, e sempre às 15 horas retornava à estação para encontrar o professor, que desembarcava do trem da tarde, para acompanhá-lo no percurso de volta a casa.

Memorial de Hachiko na estação de Shibuya

Estátua de Hachiko em frente a estação de Shibuya, em Tóquio. Escultor: Ando Tekeshi (Filho de Ando Teru, nascido em Kagoshima). Dimensões - Base de granito: 1,51mX96cm. Estátua (incluída a base): 91cm. Altura total do monumento: 2,17m


Entretanto, algo de trágico estava para acontecer no dia 21 de maio de 1925 — mal se sabia, mas, reescrevia-se ali um novo desfecho para a história. Hachiko, que na época tinha pouco menos de dois anos de idade, à hora certa, lá estava na estação como de costume, pacientemente (e de rapinho abanando!) à espera de seu dono. Só que o professor Ueno não retornaria naquela tarde de 21 de maio; sofrera um derrame fatal na Universidade que o levara a óbito. Destarte, ainda que alheio da realidade, naquele dia o leal e fiel Akita esperou por seu dono até à madrugada.

Após a morte do professor Eisaburo Ueno, conta a história que seus parentes e amigos passaram a tomar conta de Hachiko. Mas, tão forte e inexpugnável era o vínculo de afeto para com seu amado dono — lealdade, fidelidade e incondicional amor levados ao extremo —, que no dia seguinte à morte do professor ele retornou à estação para esperá-lo. Retornou todos os dias, manhã e tarde à mesma hora, na incansável esperança de reencontrá-lo, vê-lo despontar da estação de Shibuya. Às vezes, não retornava à casa por dias!

Foi assim dez anos seguidos repetindo a mesma rotina (quiçá, já não tão feliz), razão pela qual já era uma presença familiar e pitoresca para o povo que afluía à estação. E ainda que com o transcorrer dos anos já estivesse visivelmente debilitado em conseqüência de artrite, Hachiko não se indispunha a ir diária e religiosamente à estação. Nada nem ninguém o desencorajava de fazer sua peregrinação!

A história tem seu triste clímax em 8 de março de 1935, quando aos 11 anos e 4 meses, Hachiko é encontrado morto no mesmo lugar na estação onde por anos a fio esperou pacientemente por seu dono, onde durante dez anos se tinha mantido em vigília.

Hachiko, como não poderia deixar de ser, tornou-se um marco, um referencial de amizade talvez jamais igualável em qualquer era anterior ou futura na história. Sua descomunal lealdade e fidelidade receberam o reconhecimento de todo o Japão. Em 21 de abril de 1934, praticamente um ano antes de sua morte, uma pequena estátua de Hachiko, feita de bronze pelo famoso artista japonês Ando Teru, foi desvelada em sua honra numa cerimônia perto à entrada da estação de Shibuya, local onde morreu. Era a memória de Hachiko sendo imortalizada.

Durante a 2ª Guerra Mundial, para aplicar no desenvolvimento de material bélico, todas as estátuas foram confiscadas e derretidas, e, infelizmente, entre elas estava a de Hachiko.

Após a guerra Hachiko foi duramente esquecido; todavia, como toda história que se preze precisa ter um final feliz, em 1948 a The Society For Recreating The Hachiko Statue — entidade organizada em prol da recriação da estátua de Hachiko — convidou Ando Tekeshi, o filho de Ando Teru (escultor da estátua original), para esculpir uma nova estátua. Até os dias de hoje a réplica encontra-se colocada no mesmo lugar da estátua original, em símbolo de um tributo à lealdade, confiança e inteligência de uma raça, a Akita.

Todos que passam pela estação de Shibuya, em Tóquio, podem ver e comover-se com a imponente estátua de Hachiko, erguida em sua memória, eternizando a história de paixão e lealdade incomparável desse cão por seu dono. A efígie, esculpida em bronze e que repousa sobre um pedestal de granito, ergue-se como uma silenciosa prova do lugar ocupado pelos Akitas na história cultural e social do Japão.

A estação de Odate, em 1964, recebeu a estátua de um grupo de Akitas; anos mais tarde, em 1988, também uma réplica da estátua de Hachiko foi colocada próxima a estação. [Fotos — À direita, "Jovem Hachiko e seus amigos". Escultor: Zenichiro Aikawa, nascido em Akita. À esquerda, "Estátua de Hachiko na estação de Odate, Akita Prefecture". Escultor: Yoshio Matsuda, nascido em Akita]

A história de Hachiko atravessa anos, passa de pai para filho, sendo até mesmo ensinada nas escolas japonesas - no início do século para estimular lealdade ao governo, e, na atualidade, para exemplificar e instilar o respeito e a lealdade aos anciãos. Apesar de Hachiko ter sido um cão, deixou uma grande lição de vida 'animal' para todo bom amigo.

Na atualidade, viajantes que passam pela estação de Shibuya (provavelmente o ponto de encontro mais popular em Shibuya) podem comprar presentes e recordações do seu cão favorito na Loja "Shibuya No Shippo" (ou "Tail of Shibuya"), localizada no Memorial de Hachiko.

Hachiko foi empalhado (para conservar-lhe as formas) e submetido à substâncias que o isentam de decomposição, e o resultado deste maravilhoso processo de conservação está agora em exibição no Museu de Artes de Tóquio.

Quase setenta anos decorreram desde a morte do Chu-ken Hachiko, mas ele nunca será esquecido! A história por detrás da estátua de bronze perpetua-se no tempo, e continua esquentando os corações da população local e de turistas do mundo inteiro.

Fonte: Sites, o filme Hachiko Monogatari 1ª edição e livros online na internet.


endereço: http://www.clubedoakita.com.br/historia-de-hachiko-monogatari.html


**


Refletindo sobre a amizade, lealdade, fidelidade deste magnífico cão, dito irracional, vem a pergunta se somos amigos, leais e fieis aos nossos próprios princípios, pois sem sermos assim, como amar incondicionalmente e sem interesse outros, aos nossos familiares e amigos, e a refletir na vida em geral?

Para sermos felizes há de sermos assim pois o coração que ilumina é aquele que se esquece (sem anular) em prol da vida e como seguirmos para o Pai sem essa lealdade canina?

Vamos refletir?



segunda-feira, 2 de novembro de 2009

OSHO - BUDA E O TAPA


Buda estava sentado embaixo de uma árvore falando aos seus discípulos. Um homem se aproximou e deu-lhe um tapa no rosto.
Buda esfregou o local e perguntou ao homem:
- E agora? O que vai querer dizer?
O homem ficou um tanto confuso, porque ele próprio não esperava que, depois de dar um tapa no rosto de alguém, essa pessoa perguntasse: "E agora?" Ele não passara por essa experiência antes. Ele insultava as pessoas e elas ficavam com raiva e reagiam. Ou, se fossem covardes, sorriam, tentando suborná-lo. Mas Buda não era num uma coisa nem outra; ele não ficara com raiva nem ofendido, nem tampouco fora covarde. Apenas fora sincero e perguntara: "E agora?" Não houve reação da sua parte.

Os discípulos de Buda ficaram com raiva, reagiram. O discípulo mais próximo, Ananda, disse:
- Isso foi demais: não podemos tolerar. Buda, guarde os seus ensinamentos para o senhor e nós vamos mostrar a este homem que ele não pode fazer o que fez. Ele tem de ser punido por isso. Ou então todo mundo vai começar a fazer dessas coisas.
- Fique quieto – interveio Buda – Ele não me ofendeu, mas você está me ofendendo. Ele é novo, um estranho. E pode ter ouvido alguma coisa sobre mim de alguém, pode ter formado uma idéia, uma noção a meu respeito. Ele não bateu em mim; ele bateu nessa noção, nessa idéia a meu respeito; porque ele não me conhece, como ele pode me ofender? As pessoas devem ter falado alguma coisa a meu respeito, que "aquele homem é um ateu, um homem perigoso, que tira as pessoas do bom caminho, um revolucionário, um corruptor". Ele deve ter ouvido algo sobre mim e formou um conceito, uma idéia. Ele bateu nessa idéia.
Se vocês refletirem profundamente, continuou Buda, ele bateu na própria mente. Eu não faço parte dela, e vejo que este pobre homem tem alguma coisa a dizer, porque essa é uma maneira de dizer alguma coisa: ofender é uma maneira de dizer alguma coisa. Há momentos em que você sente que a linguagem é insuficiente: no amor profundo, na raiva extrema, no ódio, na oração.

Há momentos de grande intensidade em que a linguagem é impotente; então você precisa fazer alguma coisa. Quando vocês estão apaixonados e beijam ou abraçam a pessoa amada, o que estão fazendo? Estão dizendo algo. Quando vocês estão com raiva, uma raiva intensa, vocês batem na pessoa, cospem nela, estão dizendo algo. Eu entendo esse homem. Ele deve ter mais alguma coisa a dizer; por isso pergunto: "E agora?"

O homem ficou ainda mais confuso! E buda disse aos seus discípulos:
- Estou mais ofendido com vocês porque vocês me conhecem, viveram anos comigo e ainda reagem.
Atordoado, confuso, o homem voltou para casa. Naquela noite não conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, o homem voltou lá e atirou-se aos pés de Buda. De novo, Buda lhe perguntou:
- E agora? Esse seu gesto também é uma maneira de dizer alguma coisa que não pode ser dita com a linguagem. Voltando-se para os discípulos, Buda falou:
- Olhe, Ananda, este homem aqui de novo. Ele está dizendo alguma coisa. Este homem é uma pessoa de emoções profundas.
O homem olhou para Buda e disse:
- Perdoe-me pelo que fiz ontem.
- Perdoar? – exclamou Buda. – Mas eu não sou o mesmo homem a quem você fez aquilo. O Ganges continua correndo, nunca é o mesmo Ganges de novo. Todo homem é um rio. O homem em quem você bateu não está mais aqui: eu apenas me pareço com ele, mas não sou mais o mesmo; aconteceu muita coisa nestas vinte e quatro horas! O rio correu bastante. Portanto, não posso perdoar você porque não tenho rancor contra você.
E você também é outro, continuou Buda. Posso ver que você não é o mesmo homem que veio aqui ontem, porque aquele homem estava com raiva; ele estava indignado. Ele me bateu e você está inclinado aos meus pés, tocando os meus pés; como pode ser o mesmo homem? Você não é o mesmo homem; portanto, vamos esquecer tudo. Essas duas pessoas: o homem que bateu e o homem em quem ele bateu não estão mais aqui. Venha cá. Vamos conversar.


Osho; Intimidade Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros

Retirado do Portal Vida e Morte


endereço e iamgem: http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/06/buda_e_o_tapa.html


quarta-feira, 13 de maio de 2009

A MALA DE HANA


Pertenceu a uma menina separada da família pelos nazis e, actualmente, representa uma mensagem de esperança.
Deborah Cowley


FOI NUM DIA LUMINOSO de Outubro de 1944 que Hana Brady, de 13 anos, desceu da tarimba na caserna Kinderheim, em Theresienstadt, o campo de concentração nazi na Checoslováquia onde vivia há mais de dois anos. Havia rumores de que os nazis estavam a acelerar a deportação de crianças deste campo. Por essa razão, todas as manhãs ela percorria o átrio a correr para verificar nas listas quais aqueles que recebiam ordens para partir no próximo comboio para leste. Com o coração aos pulos, percorreu com o dedo todos os nomes das colunas. De repente, descobriu o dela.
Ninguém lhe dizia para onde é que os comboios iam, mas como a sua cabeça era uma grande confusão, só um pensamento a confortava: podia ser que encontrasse George, o seu querido irmão de 16 anos, que tinha partido naquele mesmo comboio quatro semanas antes.
Nessa noite, abriu a mala castanha de pele e nela arrumou as roupas e alguns dos seus desenhos favoritos. Lavou a cara e o cabelo e fez um rabo-de-cavalo. Na manhã seguinte, foi levada juntamente com um grupo de outras meninas judias para dentro de um vagão de mercadorias. Durante um dia e quase uma noite, o comboio deslizou vagarosamente na direcção de leste, atravessando uma região rural árida. Não havia comida, nem água, nem casa de banho dentro do vagão. A meio da noite de 23 de Outubro de 1944, e depois de ter atravessado a fronteira com a Polónia, o comboio parou bruscamente com grande barulho.
As portas abriram-se e um guarda levou as raparigas do vagão para a escuridão. Hana acabara de chegar a Auschwitz, o mais famoso dos campos de concentração nazis.

APENAS 13 ANOS ANTES, a 16 de Maio de 1931, Hana nascera na aldeia checa de Nove Mesto. Ela e George tinham sido criados no seio de uma família calorosa e dedicada chefiada pelo pai, Karel, proprietário da loja principal da aldeia, e a mãe, Marketa, que ajudava a atender os clientes. Hana levava uma vida feliz a brincar com o irmão, os dois gatos e a muito querida cadela Sylva, da raça pastor alemão. Os verões eram preenchidos com piqueniques no campo, e os invernos, com passeios de trenó e a esquiar pela região das montanhas vizinhas.
Havia, no entanto, uma coisa que punha a família Brady à parte: eram judeus. Uma de apenas três famílias judias na aldeia. Mas, com exceção de George, que tinha tido umas breves aulas semanais acerca da sua religião, as crianças Brady não se sentiam diferentes dos seus amigos, e também ninguém parecia tratá-las de maneira diferente.
A 15 de Março de 1939, a sua existência idílica foi abalada As tropas de Hitler entraram na Checoslováquia e estabeleceram regras estritas para os Judeus. Só podiam sair de casa a determinadas horas e fazer as compras apenas a horas específicas. Tinham de usar uma estrela de tecido amarelo cosida aos casacos onde estava escrita a palavra Jude (judeu). O rádio dos Brady – o único elo de ligação ao que se passava no Mundo – foi confiscado.
Hana e George, na altura com 8 e 11 anos, não podiam brincar na rua, ir ao cinema ou a qualquer acontecimento desportivo. Também foram proibidos de ir à escola, por isso a mãe contratou professores particulares para os ensinar em casa. Face a tal hostilização, os dois irmãos desenvolveram uma ligação especial. Mas o pior ainda estava para vir.
Em Março de 1941, a Gestapo prendeu a mãe. A família soube que fora enviada para Ravensbruck, um campo de concentração para mulheres na Alemanha. Pouco depois, prenderam o pai Um conhecido dele, judeu, teve a ousadia de desafiar as restrições. Recusou-se a recortar a estrela e, em vez disso, usava o tecido todo cosido ao casaco. Este acto isolado levou a que o oficial nazi prendesse todos os homens judeus da aldeia. Karel Brady abraçou os filhos, despedindo-se deles, disse-lhes para serem corajosos e desapareceu.
Devastados, Hana e George foram viver com o tio Ludwig, um cristão que tinha casado com a irmã do pai. Cada um levou uma mala com roupa. Rana escolheu a sua favorita – uma mala grande e castanha com um forro às pintinhas. Antes de os nazis confiscarem o apartamento dos pais, George retirou todas as fotografias da família e escondeu-as em casa do tio.
A campanha de terror nazi continuou. A 14 de Maio de 1942, a Gestapo ordenou que Hana e George fossem para um centro de deportação a 50 km de distância. Ali embarcaram num comboio para Theresienstadt, um antigo quartel militar com grandes muros de tijolo vermelho. No princípio da guerra, foi transformado pelos nazis num campo de passagem para 50 000 prisioneiros, muitos deles crianças, cujo destino final seria Auschwitz.
George foi enviado para a caserna dos rapazes e trabalhou com um canalizador que lhe ensinou o ofício. Hana foi para outro edifício, chamado Kinderheirn L410, a 0,5 km de distância. A comida era escassa e dormiam em tarimbas divididas em três camadas numa caserna gelada cheia de insectos e ratazanas. Hana ansiava por ver o irmão, mas só ao fim de várias semanas lhe foi permitido vê-lo … duas preciosas horas por semana. Levava sempre consigo parte da sua ração de comida para partilhar com George, porque ela achava que ele precisava de mais.
À medida que os meses passavam, havia cada vez mais judeus no campo. As rações de comida iam diminuindo. As doenças alastravam. Em Setembro de 1944, os nazis viram que estavam a perder a guerra e, por essa razão, aceleraram as deportações em vagões de mercadorias para Auschwitz.
Um dia, Hana recebeu a notícia que mais receava: o nome de George apareceu na lista de deportações. Antes de partir, tentou consolá-la. Disse-lhe que tinha prometido a si próprio que a levaria de novo para casa sã e salva.
«Não vou faltar a essa promessa», garantiu-lhe.
GEORGE BRADY PASSOU cinco meses de pesadelo em Auschwitz, suportando longas horas de trabalho extenuante, passando fome e regressando todos os dias para ver pessoas serem levadas para as câmaras de gás. Milagrosamente, sobreviveu.
Quando Auschwitz foi libertado em Janeiro de 1945 e ele saiu em liberdade, era um jovem de 17 anos escanzelado e sem forças.
Após a sua libertação, George viajou a pé e de comboio, chegando finalmente a casa em Maio de 1945. Ali encontrou a família do tio Ludwig. Através deles, soube a verdade lancinante: o pai e a mãe tinham morrido em Auschwitz em1942.
De Hana não havia notícias.
Durante meses, George procurou a irmã. Fez investigações em Praga, mas ninguém o pôde ajudar. Perguntou a todos os sobreviventes de Auschwitz que encontrou se a tinham visto. Sabia que ela tinha ido para Auschwitz e, lá no fundo, suspeitava que não tinha sobrevivido.
Mas não perdeu a esperança.
Um dia, enquanto percorria uma rua de Praga, uma adolescente abordou-o. Tinha sido amiga de Hana em Theresienstadt e reconheceu George. Foi ela que lhe deu a terrível notícia: Hana fora morta nas câmaras de gás em Auschwitz no dia a seguir a ter chegado …
Em 1951, George emigrou para Toronto à procura de uma nova vida. Um ano mais tarde, juntou-se a um outro sobrevivente do Holocausto e montaram um bem-sucedido negócio de canalizadores.
Casou e foi pai de três rapazes e uma rapariga, mas nunca esqueceu a irmã. Tinha pesadelos recorrentes com ela e viveu sempre atormentado pelo facto de não ter sido capaz de manter a promessa que lhe fez.

MEIO SÉCULO mais tarde, em Agosto de 2000, George Brady, agora com 72 anos, foi buscar o correio matinal à porta da sua casa, no Norte de Toronto. Escondido no meio de uma série de contas para pagar, estava um grande envelope castanho coberto com selos japoneses.
«Não conheço ninguém no Japão», pensou enquanto rasgava o envelope. Lá dentro, encontrou uma longa carta de uma jovem japonesa, Fumiko Ishioka. Preocupada com a escalada de medo e violência entre as crianças nas escolas japonesas, ela e um grupo de amigos decidiram que as crianças podiam tirar uma lição valiosa do Holocausto, «pensar no valor da vida, de outras religiões e culturas e gostar das diferenças nas pessoas».
Fumiko sabia muito pouco do Holocausto antes de aprofundar este projecto. Tendo crescido no Japão, nunca conhecera nenhum judeu, e os pais nunca falavam da guerra. O seu livro de história da escola secundária dedicava três linhas ao assunto. «Até há pouco tempo, as pessoas no Japão nem sequer conheciam a palavra “Holocausto”», dizia ela. «Lemos o Diário de Anne Frank na escola, mas não pensávamos na razão pela qual ela foi morta.»
Foi uma visita que fez ao Museu em Memória do Holocausto, em Washington DC, e o seu primeiro contacto com os sobreviventes do Holocausto que a chocaram profundamente.
Fumiko e os amigos alugaram um quarto na Baixa de Tóquio, recolheram fotografias e cartazes e, em Outubro de 1998, abriram o Centro de Recursos para o Ensino do Holocausto das Crianças.
Mas Fumiko não estava satisfeita com as exposições sem vida. Ela queria trazer o Holocausto ao vivo, com artefactos reais relacionados com o seu horror. Depois de uma viagem a Israel, a trabalhar como intérprete numa conferência, Fumiko decidiu regressar a casa através da Europa e visitar o Museu do Holocausto, em Auschwitz. «Pedi ao conservador do museu um sapato e uma mala que tivessem pertencido a uma criança morta na câmara de gás. Pensei que tais pertences haveriam de mostrar como era permitido a estas crianças judias levarem apenas uma mala quando eram deportadas. Estaríamos assim a ajudar os nossos filhos a perceberem algo sobre o sofrimento das vidas daquelas crianças.»
Algumas semanas mais tarde, chegou uma grande caixa ao centro. No seu interior, Fumiko encontrou uma meia, um sapato e uma camisola de criança, uma lata de gás venenoso Zyklon B e uma mala velha castanha forrada com um tecido às pintinhas. «Quando a abri, tinha o cheiro próprio do couro velho. Na parte de cima, escrito a tinta branca, estava o nome “Hana Brady”; por baixo, a data de nascimento, 16 de Maio de 1931, e a palavra Waisenkind (órfã em alemão).
As crianças ficaram muito entusiasmadas com a mala. Pintaram quadros e escreveram poemas e histórias acerca dela. Foi colocada numa vitrina para os visitantes a verem. Mas estavam sempre a perguntar a Fumiko: «Quem foi Hana Brady?» «Como é que ela era?» «Como é que tinha sido a sua vida?» «Também eu tinha muita curiosidade acerca desta menina», diz Fumiko.
«Tinha de encontrar as respostas.»
Voltou a escrever para Auschwitz e, ao fim de muito tempo, disseram-lhe que tinham encontrado uma lista que indicava que Hana havia sido transportada de Theresienstadt para Auschwitz. «Eu sabia que as meninas de Theresienstadt tinham feito muitos desenhos», comentou Fumiko. «Por isso, pensei que a Hana, que na altura teria 11 ou 12 anos, pudesse ser uma delas.»
A seguir, contactou o Museu do Gueto Terezin, na República Checa, para ver se tinham alguns dos trabalhos de Hana. «Disseram que sim. Fiquei muito entusiasmada quando recebi cópias de quatro dos seus bonitos desenhos, cada um deles assinado por ela no canto superior.»
No seguimento de outro trabalho de tradução, desta vez na Europa, Fumiko foi visitar pessoalmente o Museu Therezin. Chegou a Praga, onde fez uma paragem de um dia, e foi de autocarro para Therezin. Por sorte, quando lá chegou encontrou Ludmila Chladkova, a directora do Departamento de Educação do museu.
Com a ajuda de Ludmila, Fumiko passou a pente fino as longas listas de «registos de transporte», papéis amarelados e a desfazerem-se que mostravam pormenores de mais de 90 000 prisioneiros enviados para Auschwitz e outros sítios.
«De repente, lá estava o nome dela: Hana Brady», disse Fumiko, sorrindo com a recordação. «Um pequeno visto de verificação ao lado do nome dela mostrava que tinha morrido.
Mas ao lado reparei noutro Brady, um tal George Brady que era três anos mais velho …. e que não tinha um visto no nome!»
Ludmila fez uma pausa para pensar.
«Podiam ser irmãos. Brady não é um nome muito vulgar. Tinham idades próximas e vieram da mesma localidade», disse.
Será que ela sabia onde é que George morava?
Ludmila examinou outras listas e, de repente, viu o nome de Kurt Kotouc, um homem que ela achava que tinha partilhado uma tarimba com ele.
Apenas com algumas horas disponíveis antes do voo, Fumiko saltou para o autocarro de volta a Praga e foi a correr ao Museu Judeu daquela cidade. Ali, o conservador do museu fez alguns telefonemas. Sim, Kotouc estava vivo e morava em Praga. O conservador conseguiu finalmente falar com ele, que concordou em encontrar-se com Fumiko. «Ele disse-me que, efectivamente, conhecia George. Estava vivo e a morar em Toronto. Deu-me a morada dele e saiu.»

FUMIKO REGRESSOU ao Japão e escreveu imediatamente a George, pedindo informações sobre Hana. «Eu estava receosa de lhe escrever. Ele podia ficar aborrecido por o lembrar da irmã.»
Mas não precisava de preocupar-se. George Brady ficou tão emocionado com a carta que não só lhe enviou pormenores da irmã e da vida idílica que levaram em Nove Mesto, mas também fotografias da sua bonita mana loura retiradas da caixa que salvara.
Fumiko ficou louca de alegria quando recebeu aquela carta. «As minhas mãos tremiam à medida que lia coisas sobre Hana e a família. Finalmente, sabia que tipo de rapariga é que tinha sido nos seus dias felizes.»
Num trabalho que lhe levou várias horas a fazer, fez uma montagem de fotografias e desenhos e compilou todas as histórias sobre Hana num pequeno opúsculo que as crianças ilustraram. Também construíram um pavilhão para expor o seu mais importante objecto: a mala de Hana. Após várias semanas de preparação, a exposição abriu: «A Mala de Hana».

EM FEVEREIRO DE 2001, George Brady, então com 74 anos, juntamente com a sua filha de 17, Lara Hana, aceitaram o convite para visitar Fumiko no Japão. Quando chegaram ao museu, as crianças correram a recebê-los com um banho de flores de papel e um milhar de grous, também eles feitos de papel, que são um símbolo de paz no Japão. Depois, Fumiko pegou no braço de George e levou-o até à exposição. Ali, e pela primeira vez em mais de 50 anos, viu a mala da irmã com o seu nome, Hana Brady, escrito na parte de cima em grossas letras brancas. Emocionou-se até às lágrimas.
Antes de partir, George disse às crianças que a sua irmã sempre quisera ser professora. «E agora, graças a Fumiko e a vocês … a Hana está a viver o seu sonho.»

Este episódio inspirou um livro para crianças com o título Hana’s Suitcase, da autoria da escritora canadiana Karen Levine, publicado em Maio de 2002 e desde então traduzido em15 línguas, entre elas português. A tradução japonesa é de Fumiko Ishioka.
Dados da edição portuguesa:
Karen Levine - A mala de Hana – uma história verdadeira - Lisboa, Terramar, 2005

Selecções Reader’s Digest – Abril 2004

pp. 32-39


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SERENIDADE


A coragem moderna não passa por atos guerreiros ou atitudes de herói. A nova forma de bravura passa por conseguir dizer, sem violência nem agressividade, quem somos, aquilo em que acreditamos e o que queremos.

LAURINDA ALVES, in XIS/Público, Lisboa


segunda-feira, 6 de abril de 2009

A ROUPA DE GANDHI


Mahatma Gandhi só usava uma tanga a fim de se identificar com as massas simples da Índia, pra ele as vestimentas nunca foram importantes.

Certa vez ele foi convidado pelo governador inglês para uma festa beneficente e chegou vestido como de hábito, como uma tanga.

Os criados vendo-o não o deixaram entrar, pois era uma festa de gala.

Ele tranqüilamente, voltou para casa e enviou um pacote ao governador, por um mensageiro. Dentro continha um terno.

O governador ligou para a casa dele e lhe perguntou o significado do embrulho.

O grande homem respondeu:- Fui convidado para a sua festa, mas não me permitiram entrar por causa da minha roupa. Se for a roupa que vale, eu lhe enviei o meu terno.

Desta forma, Mahatma Gandhi provou que a "roupa não faz o homem"... e nós ainda temos o hábito de "olhar" as pessoas pela sua maneira de vestir ou calçar, ou seja, continuamos vendo o externo, sem nos importar o conteúdo.



imagem: Internet

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