Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Morte. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A MORTE DEVAGAR


Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.


Martha Medeiros



Sobre a autora:

Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre em 1961. Formada em Publicidade. Escreveu livros de poesias e de crônicas, seu mais recente lançamento é o livro de ficção: Divã. Martha é cronista do jornal Zero Hora.

Poesia apresentada no programa 97

Os poemas e os textos lidos em "Provocações” são, às vezes, livre adaptação do original, por Antônio Abujamra ou Gregório Bacic. O formato em que se apresentam escritos aqui é apropriado para a leitura em TV e não o seu formato original.

Extraído de:

http://www.tvcultura.com.br/provocacoes/poesia.asp?poesiaid=11

endereço: http://textos_legais.sites.uol.com.br/a_morte_devagar.htm

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

TSUNAMI SILENCIOSO


Está adiado o sonho de o prémio Nobel da Paz, o bengali Muhammad Yunus, impulsionador do microcrédito, ver a fome restringida a museus para que o ser humano nunca se esquecesse das tragédias que a fome provoca. A fome foi e é, mais do que as guerras e a peste, a pior arma de destruição maciça! Foi e é responsável por inúmeros e silenciosos morticínios humanos.

Com a incompetência, a indiferença e a ganância instaladas há décadas na governação global, nos seus aliados institucionais (FMI, BM, OMC…) e em alguns fundos globais, sem ética, continuaremos a observar por muito tempo o nefando quadro da fome: ela instalou-se no nosso seio e já está a ceifar milhões de vidas.

As causas do espectro da fome global são múltiplas, todas previsíveis e evitáveis, não fossem os aprendizes de feiticeiro já citados terem dado ou obtido de bandeja todas as oportunidades para agravarem o mortífero tsunami silencioso da fome. De desregulamentação em desregulamentação, chegou-se à desenfreada especulação sobre os alimentos, prevendo a ONU que se possa chegar, se medidas estruturantes urgentes não forem tomadas, ao morticínio de cem milhões de pessoas! E não falo dos sofrimentos que o espectro da fome provoca, como aquele que observei na fronteira entre Jalalabad (Afeganistão) e Peshawar (Paquistão): adultos e crianças, tentando passar sorrateiramente, evitando bastonadas, alguns quilos de farinha para sobreviver! Nesse jogo do gato e do rato, uma menina afegã de oito anos morreu, marcando indelevelmente a minha consciência humana.

Que medidas estruturantes globais têm de ser já tomadas para acabar com a verdadeira escravidão biológica que é a fome? Impedir a especulação financeira sobre os alimentos, a grande detonadora do cataclismo actual; proibir a produção de biodiesel com alimentos e em áreas agrícolas destinados à alimentação dos seres humanos e animais (há alternativas!); adaptar medidas que evitem o agravamento das alterações climáticas a médio prazo, dado que algumas das suas consequências são já irreversíveis; aumentar as áreas de cultivo destinadas a alimentar seres humanos e animais. Já o falecido professor Josué de Castro, antigo presidente da FAO, demonstrava no seu magistral livro Geopolítica da Fome que o planeta, se bem gerido, poderia alimentar o dobro da população actual; regulamentar e controlar o preço dos combustíveis! Nunca as empresas petrolíferas e os estados ganharam tanto dinheiro como agora; acabar com as guerras travadas sob pretextos falaciosos e com as violações do Direito Internacional e da Carta das Nações Unidas, que só criam mais refugiados e mais conflitos. E por isso, também, mais esfomeados; aliviar a asfixia que sufoca os países mais pobres, perdoando-lhes as dívidas e os juros, e bloquear as contas faraónicas dos seus corruptos governantes, afim de se criar um fundo de desenvolvimento para esses países; acabar com as monoculturas de exportação, nos países economicamente subdesenvolvidos, incentivadas ou impostas pelos funestos planos de (des)ajustamento estrutural do FMI e BM; implementar um comércio justo entre os países ricos e pobres.

Não é com a injecção pontual de milhões de euros que se resolve a epidemia da fome. Se não se aplicarem as medidas estruturais referidas, o genocídio pela fome vai agravar-se. As primeiras vítimas dessa praga social criada pelo homem são sempre as mesmas: os miseráveis dos países mais pobres. Por efeito de ricochete, seremos todos atingidos. Temos de reagir todos e agora, pois o espectro da fome já está entre nós!

Fernando Nobre
Presidente da AMI
Notícias Magazine, 11 Maio 2008


endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2009/07/14/tsunami-silencioso/

imagem: nature.zip.net



LinkWithin

Related Posts with Thumbnails