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quarta-feira, 15 de junho de 2011

VOCÊ É REPELENTE OU ATRAENTE?


Você conhece alguém que reclama de tudo?
Já ficou ao lado de alguém que parece pesado, chato, cansativo?
Já conviveu com alguém que bate as portas, que fala gritando e que tem sempre uma palavra rude na ponta da língua para disparar em quem se atrever a lhe perguntar algo?

Já conheceu alguém que reclama até de propaganda de televisão,
que fica nervoso com os telejornais, com a política, com a burocracia,
com o cachorro, com as seguradoras, com o síndico e
com a mulher (ou marido), filhos, sogra e até com o tempo?

Se faz sol é porque o calor é insuportável.
Se chove é porque “pobre não tem sorte mesmo”.
Tudo é motivo pra reclamar!
E o maior problema é que as pessoas que são (ou estão) assim,
quase sempre não percebem!
Por isso, pergunte-se:
"Você anda reclamando demais da vida?"

Tem se comportado como uma pessoa pesada e desagradável?
Ou seja, tem se comportado como pessoa-repelente?
Tem se dado conta de que poucos amigos ainda continuam ligando de vez em quando e que dificilmente alguém te paquera, se interessa e
se mantém interessado por você depois de te conhecer melhor?

Sim, porque ninguém gosta de ficar perto de alguém que
mais parece uma “ziquizira” do que um “convite”...
E essa é a notícia chata que eu tinha pra dar...
Mas eu tenho também uma notícia muito boa!

De pessoa-repelente você pode passar a pessoa-atraente...
E é mais simples do que você imagina.
O primeiro passo é se tornar uma pessoa afetuosa.
Sobre isso, Leo Buscaglia em seu livro “Vivendo, Amando e Aprendendo” deu algumas dicas:

- “Para começar, acredito... que a pessoa afetuosa seja uma pessoa
que goste de si. ... Não me refiro ao narcisismo... Refiro-me a uma
pessoa que goste de si como alguém que sabe que só podemos
dar aquilo que possuímos, de modo que é bom começar a
conseguir alguma coisa.”

- “Acho que a segunda coisa mais importante num indivíduo afetuoso é
que ele se liberta de rótulos... Basta você ouvir um rótulo para
pensar que sabe tudo sobre ele. Ninguém jamais se dá o trabalho de dizer: ‘
Ele chora? Sente? Entende? Tem esperanças?’.
Palavras... Você, se for uma pessoa afetuosa, se dirá o que significa
uma palavra só depois de descobrir, por experiência, o que significa;
não por acreditar na definição de outras pessoas.”

- “Também acho que o indivíduo afetuoso é o que detesta o
desperdício e não suporta a hipocrisia. Rosten diz: ‘
Os fracos é que são cruéis.
Só se pode esperar a brandura dos fortes.’”

- “Por fim, acho que o indivíduo afetuoso é aquele que não
se esqueceu de suas próprias necessidades...
A necessidade de sermos vistos, conhecidos, reconhecidos...
A necessidade de desfrutar do nosso mundo,
de ver a maravilha contínua da vida,
de poder ver como é maravilhoso estar vivo.”

Bom, o Leo escreveu muitas outras coisas fantásticas e eu
adoraria continuar citando essas maravilhas,
mas sugiro que você leia este livro! E eu vou continuar meu artigo...
Depois de se tornar afetuosa, sugiro que você se torne uma pessoa gostosa.

Não, não estou falando de medidas, peso, busto, quadris e cintura...
Estou falando de leveza, de alto astral, de risada, flexibilidade,
senso de humor, otimismo... Estou falando da criança que
existe em cada um de nós... mas que talvez você tenha esquecido
a sua trancada no porão, desde quando se deu conta
de que cresceu, de que os anos passaram.
Bobagem! Abra o porão, resgate a sua capacidade de
transformar pequenas ocasiões em festas.

E assim, afetuoso e gostoso, você terá se tornado uma pessoa-atraente.
Daquelas que a gente tem vontade de ligar, de convidar pra sair,
de conversar, de contar segredos, de pedir conselhos...
Daquelas que a gente tem vontade de amar!
Porque, afinal, de que mais a vida é feita?

E nunca se esqueça:
se não conseguir sozinho, procure ajuda!


Débora G Minatel
Fisioterapeuta, Dra. em Biotecnologia na Área da Saúde


texto - internet
imagem - thatipop.blogspot.com

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

NA COZINHA COM IRMÃO BARTOLOMEU


Karin Lamasaki

Situado no último andar da mais alta torre do mosteiro, o quarto do abade Luigi ocupava um lugar estratégico. A escolha do aposento não fora sem motivo, pois o prudente superior fazia questão de ter uma boa visão do mosteiro entregue pela Providência aos seus cuidados.

Naquela manhã, ao olhar pelas janelas, dois monges chamaram-lhe a atenção. O primeiro foi o Irmão Bartolomeu, o qual, subindo a trilha, voltava da cidade a arfar sob o peso de duas grandes alforges repletos de víveres por ele recebidos na feira da cidade.

Esse bom frade era homem simples, de pouca instrução, mas muito piedoso e dedicado. Conseguia os mantimentos e ele mesmo preparava-os, procurando, até onde permitia a pobreza franciscana, servir aos monges a melhor alimentação possível.

Da outra janela, o abade avistava o claustro. Sentado num banco de pedra, estava o segundo monge alvo das suas atenções. Tendo alguns livros empilhados à sua volta, Frei Lucrécio lia entusiasmado um grosso volume de apologética. Ele era quem ministrava as aulas aos jovens noviços, e a sua segurança em matéria doutrinária granjeara-lhe fama nas redondezas, a tal ponto que tanto leigos como religiosos vinham consultá-lo sobre intrincados pontos dos ensinamentos cristãos.

Observando os dois monges, o velho abade pôs-se a meditar na grandeza de Deus, que criava homens tão diferentes, mas fazia-os viver sob o mesmo tecto, irmanados pela mesma vocação, e chamados a servir os seus semelhantes de maneiras diversas.

* * *

No meio daquela tarde, alguém subiu os degraus da torre e bateu à porta do quarto do abade. Era Frei Lucrécio. Com um livro debaixo do braço, pedia uma conversa reservada com o seu superior.

— Então, o que te perturba, irmão?

— Nenhum problema pessoal, mas algo que diz respeito à nossa comunidade, senhor abade. Não podemos aceitar entre nós uma pessoa tão desqualificada como esse… esse Irmão Bartolomeu!

O abade Luigi levantou as sobrancelhas, um pouco surpreso. Que mal teria feito o humilde monge? E Frei Lucrécio continuou a dar argumentos para demonstrar como aquele homem tão ignorante causava malefício à comunidade:

— Ele simplifica tudo! Nunca consegue acompanhar os elevados raciocínios que eu, mestre em teologia, procuro transmitir. Ademais, tem costumes estranhos, como, por exemplo, na ocasião em que tentou ensinar um papagaio a rezar a Ave Maria…

O abade ouviu o monge apresentar as suas queixas com ar perplexo e sem dizer palavra. O seu olhar atento indicava estar a pensar rápido, porém profundamente. E quando o outro terminou de falar, respondeu:

— Pois bem. Tudo quanto me disseste é muito sério. Mas eu gostaria de ter mais dados, antes de tomar alguma atitude. Por exemplo, não sei exactamente o que ele faz na cozinha, quando fica sozinho. Assim, peço acompanhá-lo esta tarde na preparação do jantar, e depois apresenta-me um relato detalhado de tudo o que ele diz e faz. Fica atento a qualquer atitude na qual ele demonstre essa suposta mediocridade, ou ignorância, por si mencionada. Em função disso, tomaremos uma atitude.

* * *

E assim foi. No fim da tarde, o mestre de teologia apresentou-se na cozinha, para ajudar o irmão cozinheiro. Como este nunca discutia uma ordem superior, nada perguntou a respeito. Justo naquela noite, o prato da ceia seria esparguete com molho à bolonhesa. O douto monge observava com atenção tudo quanto o outro fazia. Além da carne picada, havia vários ingredientes que lhe pareciam bem saborosos, como, por exemplo, cebola, toucinho e tomate, este último por ele especialmente apreciado. Quando, porém, Frei Bartolomeu começou a cortar as cenouras, Frei Lucrécio protestou:

— Como? A tantas delícias, acrescentarás essas míseras cenouras? Esse vegetal mesquinho vai alterar completamente o gosto do molho!

— Mas… mas… eu sempre fiz assim! — disse o pobre cozinheiro.

— Pois bem, se quiseres, serve isso para os outros. Para mim, separa uma parte do molho, sem essas pérfidas cenouras.

Enquanto isso, Frei Lucrécio pensava consigo mesmo: “Aqui está, sem dúvida, uma prova da ignorância desse homem, pois em tudo o que ele faz procura acrescentar uma nota de mau gosto, como essa história das cenouras. Amanhã, vou contar isso ao abade”.

Na hora do jantar, todos comeram o esparguete com molho à bolonhesa convencional, excepto Frei Lucrécio, a quem foi servida a parte sem cenouras. Para a sua surpresa, o preparado estava horrivelmente ácido, a tal ponto que ele com dificuldade pôde terminar o prato. Como, porém, tinha sido uma exigência sua, ele comeu tudo sem reclamar…

* * *

Aquela não foi uma boa noite. O molho definitivamente não lhe caiu bem. Ele não conseguiu dormir direito, teve pesadelos e acordou várias vezes com enjoo. Na manhã seguinte, pálido e com olheiras, foi falar com o abade para apresentar o seu relato. Este impressionou-se com o aspecto doentio do douto mestre, o qual então lhe contou o ocorrido com o molho ácido, causa do seu mal-estar.

O experiente abade, sorrindo, disse-lhe:

— Sabe, Irmão Lucrécio, quando fui noviço, trabalhei um bom tempo na cozinha. Aliás, fui eu que pedi a Frei Bartolomeu para fazer o esparguete com molho à bolonhesa ontem. É bem interessante como a culinária, em certas ocasiões, apresenta exemplos úteis à vida religiosa. Na verdade, compor uma boa comunidade muitas vezes é como preparar uma boa receita: exige a sábia combinação de vários ingredientes. Veja o tomate: tem um sabor todo especial e é um dos elementos centrais do molho, mas torna-se ácido facilmente; por isso é necessário colocar junto dele a humilde cenoura, cuja função nessa receita não é dar sabor, mas justamente absorver a acidez do conjunto.

— Irmão Lucrécio, acredito que estejas a compreender bem esta comparação, mas quero deixá-la ainda mais clara. Assim como o cozinheiro na preparação da receita, também eu, na função de abade, devo cuidar de monges que me são preciosos pela sua sabedoria e doutrina, embora sejam por vezes “ácidos”. E para isso, ajuda-me dispor também de outros que não têm muita proeminência, mas, pela sua simplicidade, agem como as cenouras no molho à bolonhesa suavizam o conjunto. Entendes agora, irmão, porque me alegra poder ter-te e Frei Bartolomeu juntos na nossa comunidade?

Frei Lucrécio aceitou com humildade as palavras do seu virtuoso abade. Reconfortado, agradeceu o ensinamento e, após a bênção, dispôs-se a sair. Quando estava já à porta, disse-lhe ainda:

— Ah, um detalhe a mais, irmão: o molho ficou ácido também por não ter sido cozido durante o tempo suficiente; na culinária como na vida cristã, a paciência é uma virtude fundamental para que tanto o alimento quanto o convívio tenham sabor suave e agradável…


In Arautos de Fátima Maio 2007



texto - http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/11/04/na-cozinha-com-irmao-bartolomeu/

imagem - acnsf.org.br

quarta-feira, 30 de junho de 2010

ERRADO E CERTO E FICAR LIBERTO


Certo e errado. Perder e ganhar

Se alguma vez assististe a um concurso, então já sabes alguma coisa sobre o “certo” e o “errado”. O jogador que responde errado perde o jogo. O jogador que responde certos, ganha.
Na vida, o “certo” e o “errado” são um pouco assim.
Quando fazes alguma coisa errada, alguém perde — tu ou a outra pessoa. Quando fazes uma coisa certa, todos ganham.
Se não deixares o teu irmão entrar no jogo, ele perde a oportunidade de jogar. Tu também perdes — a oportunidade de seres justo e gentil.
Mas se jogarem o jogo juntos, então ambos ganham.

Distinguir o bem do mal

Provavelmente, a maneira mais simples de distinguires o bem do mal é perguntares a ti mesmo:
— Será que vou magoar-me ou magoar alguém? Será que vou ferir os sentimentos de alguém?
Se sim, então está mal.

A tua consciência

Já deves ter visto bandas desenhadas onde alguém está a tentar tomar uma decisão.
Um pequeno anjo num ombro aconselha-o a fazer o bem.
Um pequeno diabo no outro ombro aconselha-o a fazer o mal.

Claro que isto não acontece na vida real, mas a tua “consciência” é um pouco o anjo. A tua consciência está dentro de ti e ajuda-te a fazer o bem.

Todos erramos

Quando magoares alguém por fazeres alguma coisa errada, reconhece que fizeste mal e pede desculpa.
Tenta encontrar uma maneira de fazeres que a outra pessoa se sinta melhor. Podes fazer um desenho para mostrares que estás arrependido. Podes arranjar o que estragaste ou devolver o que tiraste.

Bons e maus dias

Alguma vez sentiste que estás a ter um mau dia? Talvez estejas cansado e irritado. Talvez seja a tua irmã que está a aborrecer-te. Talvez queiras até fazer alguma coisa que não te é permitida.
Não podes evitar o que sentes, mas podes mudar a tua maneira de agir.
Não tens que ser maus quando estás zangado. Não tens de gritar com a tua irmã quando ela está a ser aborrecida e não deves utilizar as coisas novas do teu pai sem lhe pedir licença.
Tu mandas na tua boca, nas tuas mãos e nos teus pés.
Tu tens poder para fazer o que está certo.
Não podes mudar ou controlar os outros, mas podes controlar as tuas próprias acções.

Mentir, copiar e roubar

Se mentes e dizes que o teu primo partiu a lâmpada, magoas o teu primo porque é ele que fica com as culpas. Mas também te magoas a ti. Se te habituares a mentir, as pessoas deixam de confiar em ti.
Se não sabes resolver o teste e copias pelo teste do teu colega, também te magoas a ti. O professor não sabe que precisas de ajuda nessa lição e podes vir a ter problemas nas lições seguintes.
E se roubas um baralho de cartas? Magoas o dono da loja, que precisa de vender as cartas para ganhar dinheiro. Magoas também a tua consciência, porque sabes que não está certo roubar.

Imitar os outros para pertencer ao grupo

Por vezes, as crianças pensam que, para que se goste delas, têm de ser como as outras crianças.
É normal querer pertencer a um grupo.
Mas não penses que tens de fazer disparates só para pertenceres ao grupo.

E se os teus amigos te convidarem para ires com eles sujar as janelas do senhor que vive ao fundo da rua?
Sabes que não deves sujar a casa de outra pessoa, mas não queres que os teus amigos pensem que és medricas.

Sê sincero contigo — e com o que tu pensas que está certo ou errado. Os amigos que querem que faças o que está errado não são teus amigos.
Podes sugerir-lhes outra coisa ou apenas dizer-lhes: “Não, obrigado”, e afastares-te.

Violência

Já deves ter visto jogos de vídeo onde ganhas pontos por bateres e dares pontapés ao “mau da fita”.
Jogos como este ensinam mal as crianças, porque a violência (fazer mal aos outros) está errada.
Em alguns casos raros, quando as suas vidas estão em perigo, as pessoas precisam de se defender. Isso chama-se “legítima defesa”, e é a única vez que faz sentido magoar outra pessoa.

Quando estás a discutir com alguém, existem outras hipóteses para além de lutar. Podes conversar ou não ligar.
Não está certo lutar.
Usa as tuas capacidades a favor da paz.

Ser bom e fazer o bem

Ser bom não tem só a ver com o que não se deve fazer. Também tem a ver com o que se deve fazer.
Está certo não sujar as janelas do vizinho, mas é melhor ajudá-lo a levar as compras para casa.
Está certo não chamar nomes às outras crianças, mas é melhor convidá-las para brincar.

É bom ajudar as pessoas que são tratadas injustamente. Isto é verdade, especialmente se elas não conseguem defender-se sozinhas por alguma razão — talvez por serem muito tímidas, por exemplo.
Não basta cumprir as regras. Vai mais longe — ajuda, defende, faz o bem.

Um mundo melhor

Vê as notícias e vais aperceber-te que há muitas coisas erradas no mundo. Mas tu podes ajudar a tornar o mundo melhor, pouco a pouco.
Sempre que não te vingas de alguém que te magoou, tornas o mundo mais pacífico.
Sempre que defendes os direitos de alguém, tornas o mundo mais justo.
Sempre que escolhes o bem em vez do mal, tornas o mundo melhor.

O mais importante é seres carinhoso.
Sê carinhoso… e nunca sairás mal.

Lisa O. Engelhardt
Errado e certo
e ficar liberto

Lisboa, Paulinas, 2003
Adaptação


endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2009/06/05/errado-e-certo-e-ficar-liberto/

imagem: dementes-inquietas.blogspot.com


domingo, 20 de junho de 2010

O CARNEIRO REVOLTADO


Certo carneiro muito inteligente, mas indisciplinado, reparou os benefícios que a lã espalhava em toda parte, e, desde então, julgou-se melhor que os outros seres da Criação, passando a revoltar-se contra a tosquia.
- Se era tão precioso – pensava -, por que aceitar a humilhação daquela tesoura enorme? Experimentava intenso frio, de tempos a tempos, e, despreocupado das ricas rações que recebia no redil, detinha-se apenas no exame dos prejuízos que supunha sofrer.
Muito amargurado, dirigiu-se ao Criador, exclamando:
- Meu Pai, não estou satisfeito com a minha pelagem. A tosquia é um tormento... Modifica-me, Senhor!...
O Todo-Poderoso indagou, com bondade:
- Que desejas que eu faça?
Vaidosamente, o carneiro respondeu:
- Quero que a minha lã seja toda de ouro.
A rogativa foi satisfeita. Contudo, assim que o orgulho ovino se mostrou cheio de pêlos preciosos, várias pessoas ambiciosas atacaram-no sem piedade. Arrancaram-lhe, violentamente, todos os fios, deixando-o em chagas.
O infeliz, a lastimar-se, correu para o Altíssimo e implorou:
- Meu Pai, muda-me novamente! não posso exibir lã dourada... encontraria salteadores sem compaixão.
O Sábio dos Sábios perguntou:
- Que queres que eu faça?
O animal, tocado pela mania de grandeza, suplicou:
- Quero que minha lã seja lavrada em porcelana primorosa.
Assim foi feito. Entretanto, logo tornou ao vale, apareceu no céu enorme ventania, que lhe quebrou todos os fios, dilacerando-lhe a carne.
Regressou, aflito, ao Todo-Misericordioso e queixou-se:
- Pai, renova-me!... A porcelana não resiste ao vento... estou exausto...
Disse-lhe o Senhor:
- Que queres que eu faça?
- A fim de na provocar os ladrões e nem ferir-me com porcelana quebrada, quero que a minha lã seja feita de mel.
O Criador satisfez o pedido. Todavia, logo que o pobre se achou no redil, bandos de moscas asquerosas cobriram-no em cheio e, por mais corresse campo a tora, não evitou que elas lhe sugassem os fios adocicados.
O mísero voltou ao Altíssimo e implorou:
- Pai, modifica-me... as moscas deixaram-me em sangue!
O Senhor indagou de novo, com inexaurível paciência:
- Que queres que eu faça?
Dessa vez, o carneiro pensou mais tempo e considerou:
- Suponho que seria mais feliz se tivesse minha lã semelhante às folhas de alface.
O Todo-Bondoso atendeu-lhe mais uma vez a vontade e o carneiro voltou a planície, na caprichosa alegria de parecer diferente. No entanto, quando alguns cavalos lhe puseram os olhos, não conseguiu melhor sorte. Os eqüinos prenderam-no com os dentes e, depois lhe comerem a lã, abocanharam-lhe o corpo.
O carneiro correu na direção do Juiz Supremo, gotejando sangue das chagas profundas, e, em lágrimas, gemeu humilde:
- Meu pai, não suporto mais!...
Como soluçasse longamente, o Todo-Compassivo, vendo que ele se arrependera com sinceridade, observou:
- Reanima-te, meu filho! Que pedes agora?
O infeliz replicou, em pranto:
- Pai, quero voltar a ser um carneiro comum, como sempre fui. Não pretendo a superioridade sobre meus irmãos. Hoje sei que os meus tosquiadores de outro tempo são meus verdadeiros amigos. Nunca me deixaram em feridas e sempre me deram de comer e beber, carinhosamente... Quero ser simples e útil, qual me fizeste, Senhor!...
O Pai sorriu, bondoso, abençoou-o com ternura e falou:
- Volta e segue teu caminho em paz. Compreendeste, enfim, que meus desígnios são justos. Cada criatura está colocada, por minha Lei, no lugar que lhe compete e, se pretendes receber, aprende a dar.
Então o carneiro, envergonhado, mas satisfeito, voltou para o vale, misturou-se com os outros e daí por diante foi muito feliz.

Neio Lúcio
(Francisco Cândido Xavier)

endereço: internet
imagem: semeamor.blogspot.com

sábado, 5 de junho de 2010

ALTA COMO UMA ESTACA


Alexandra arranca os ganchos coloridos do cabelo preso e solta-o.

Nem aos ombros lhe chega. Não é comprido nem curto nem nada bonito.

— Buu!! — Alexandra faz uma careta para a sua imagem no espelho. O cabelo faz lembrar as repas do seu cão Bitó.

A um galgo até ficam bem. A Alexandra, não.

Nem sequer tem uma cor definida o cabelo de Alexandra. Não é loiro nem castanho. Está entre o loiro escuro e o castanho claro.

Furiosa, Alexandra agarra no sabonete molhado que está pousado em cima do lavatório e besunta o espelho todo com riscas cor-de-rosa diagonais, sobre a imagem da sua cara.

Alexandra não se suporta a si própria.

Nem aos seus olhos azul pálido.

Gostava era que fossem castanho escuro, como os de Manuela, a vizinha do lado.

Pior do que as repas à cão e dos olhos azul claro é a sua altura. É um palmo mais alta do que o maior rapaz da turma. Ainda ontem o pai tornou a dizer:

— A Alexandra cresce como um pé de feijão: cada vez mais!

E o que hão-de dizer os familiares que não vêem Alexandra há muito tempo?

— Meu Deus! Cresceu tanto! Daqui a pouco estás maior do que nós!

Ainda bem que não dizem:

— Olá, girafa, como estás!?

Durante a noite, Alexandra sonha que tem uns pés muito pequeninos e umas pernas curtas, mas um pescoço enorme, enorme como um campanário e, bem lá no cimo, balança uma cabeça pequena. Vê-se a correr por uma praça fora com muita gente atrás dela, mas não consegue esconder-se em lado nenhum.

O pior é quando recebem visitas que nunca tinham visto Alexandra.

— Aah! — costumam dizer à mãe, e depois fazem uma pequena pausa. — Então esta é que é a tua filha!…

E soa como se dissessem: então este é que é o camelo de quem se fala na família e entre os amigos.

Alexandra exagera um bocadinho. Como não gosta de si, põe na boca dos outros a ideia que tem de si.

É certo que Alexandra é alta para a idade, mas não é uma girafa, um camelo ou um dinossauro. Dinossauro, acabou agora mesmo de inventar.

E hoje gostava de estar especialmente bonita. Para o engraçado do tio Ralph que, passados quatro anos, os visita de novo em Viena. O tio Ralph vive em Londres e está casado com a irmã da mãe.

Mas, quando vir Alexandra, também ele vai, com certeza, dizer:

— Então esta é que é a pequena Alexandra?

Ela não tem nada de que se possa gostar à primeira vista. Não é pequena nem graciosa como a Manuela do lado. Não tem olhos escuros nem cabelos bonitos como os de Manuela, castanhos cor de avelã. Alexandra é um feijão e os feijões não são dignos de apreço.

Para além do papá e da mamã, mais ninguém é carinhoso para com feijões. Alexandra vê muito bem a diferença de trato em relação à Manuela do lado. Se cá vem quando estão com visitas, as visitas ficam logo com os olhos a brilhar, embora ela nem pertença à família.

Abraça-se a Manuela, até se lhe faz festas no cabelo e pergunta-se-lhe o nome, como se isso fosse de uma grande importância.

Na semana passada, na aula de Desenho, Alexandra teve de fazer um auto-retrato, mas a folha era muito pequena. Começou em baixo, pelos pés, e ainda só ia na testa quando o papel acabou, em cima. Já não houve espaço para o cabelo, e assim teve de ficar careca.

De algum tempo para cá, adoptou uma má postura: um pouco inclinada para a frente, os ombros ligeiramente encolhidos, as costas um pouco curvadas. Nesta posição, Alexandra parece uns bons dois centímetros mais pequena do que aquilo que realmente mede.

Quando, na aula, é chamada ao quadro, encolhe ainda um pouco a cabeça e avança com a nova postura de “dois centímetros a menos”. Corada, à frente do quadro preto esverdeado, sendo a única de pé no meio dos outros vinte e três colegas sentados, parece-lhe ser maior do que nunca. Por isso, dobra ainda imperceptivelmente os joelhos, o que lhe retira mais meio-centímetro.

Esse meio-centímetro faz muito bem à auto-estima de Alexandra.

A mãe põe a mesa para a chegada do tio Ralph.

— A Manuela não pode vir cá hoje, quando o tio Ralph cá estiver! Pelo menos hoje, queremos estar a sós com ele — diz Alexandra.

A mãe tira uma pétala amarela a uma rosa.

— Também acho melhor. Agora que o Ralph acaba de chegar. Mas diz lá… — a mãe vira-se para Alexandra. — Discutiste com a “Manni”?

— Não…sim… — Alexandra não quer, de modo nenhum, revelar o verdadeiro motivo: Manuela tem olhos castanhos- scuros e o cabelo cor de avelã, e é pequena e delicada. O tio Ralph nem devia vê-la pela frente. Pelo menos, por enquanto.

— Mas é grave? — pergunta a mãe. — A Manni é sempre tão querida. O que é que se passa entre vocês as duas?

— Ah, não é nada — abandona a sala apressadamente.

“Manni” … Aqui está outra coisa enjoativa. “Manuela” é muito mais bonito do que aquele diminutivo, que é mesmo estúpido. Ainda assim… “Manni” é um nome carinhoso, uma coisa para meninas pequenas, queridas, delicadas.

Só os pais é que a tratam por “Xana”. Mais ninguém se lembraria de lhe dar um nome pequeno. Um nome comprido, com imensas letras, assenta como uma luva a um longo pé de feijão.

— Põe os ganchos do cabelo — aconselha a mãe de Alexandra, assim que a filha volta à sala. — Pelo menos os cabelos parecem em ordem. Se o avião de Londres tiver aterrado a horas, o pai pode chegar aí com o tio Ralph a qualquer momento.

— Fico mal com os ganchos!

De repente, sente os olhos marejados de lágrimas. A mãe não dá conta porque está de costas, a pôr a mesa. De repente, Alexandra ganha raiva também à mãe, que põe a mesa, que dobra os guardanapos em leques azuis claros e que arranja as flores da jarra para que pareçam bonitas vistas de qualquer lado.

“Bem posso compor-me quanto quiser”, pensa Alexandra. “Com ou sem ganchos fico sempre sem graça nenhuma.”

Olha! Aquela é a voz do tio Ralph, com o seu inglês engraçado, todo enrolado. A porta vai abrir-se a qualquer momento.

Alexandra corre para a casa de banho, pega nos ganchos em forma de rosa e prende-os no cabelo, de ambos os lados.

Ao menos os ganchos são bonitos!

— Olá! — grita a mãe abraçando o cunhado.

O tio Ralph pousa a pesada mala preta, deixa descair dos ombros o saco de desporto de onde sai uma raquete de ténis.

— Great to be back home — exclama, como se a sua casa fosse ali e não em Inglaterra. Com o tio Ralph, uma pessoa sente-se logo à vontade! Ri muito e sabe montes de boas anedotas. Até anedotas para crianças.

Está moreno e, com o bigode crescido dos lados, parece-se um pouco com um leão marinho.

Alexandra observa o tio Ralph do vestiário, onde se escondeu até se decidir ir cumprimentá-lo. Dantes, quando era pequena, corria para ele de braços abertos.

Hoje, não está para corridas. O tio Ralph ainda se assusta ao ver uma coisa tão alta a correr para ele…

Um pé de feijão não corre.

— And where is little Alexandra? — pergunta o Tio Ralph, procurando-a com o olhar à sua volta.

Alexandra estremece.

— Bem — diz o pai, não sem orgulho. — Até vais admirar-te. Da little Alexandra fez-se uma grande Alexandra. Espero, caro Ralph, que, a partir de hoje, fales alemão! O meu inglês não vai além de good morning e good evening.

— Okay! Então, onde está a Alexandra? — a forma como o tio pronuncia soa a “Aleksandruá”!

Devagarinho, Alexandra sai da meia-escuridão e dirige-se ao tio na sua postura de “dois centímetros e meio a menos”.

Ele abre os braços cheio de uma alegria efusiva. É bonito porque o tio Ralph “esmaga-a” exactamente como dantes.

— My goodness! — espanta-se — What a big girl! Mas que alta que estás!

Os cantos da boca de Alexandra encolhem-se e descaem.

— Like a mannequin!! — acrescenta tio Ralph radiante.

Da forma como o tio pronuncia a palavra estrangeira, ela não pode significar nada de feio. Nenhuma girafa, nenhum dinossauro.

Ele diz: “man’cã” e pronuncia as últimas sílabas pelo nariz como se estivesse constipado.

A mãe ri porque reparou na expressão de surpresa e confusão de Alexandra.

— Mannequin é uma palavra francesa — explica — Já te contei uma vez que a minha irmã Deborah fazia desfiles. Era manequim.

— Ah! — diz Alexandra.

Antes de poder continuar a falar, o Tio Ralph fá-la girar sobre si mesma, observa-a de todos os lados e prega-lhe na testa um beijo áspero por causa do bigode.

— Asseguro-vos — repete — que vai ser igualzinha à minha Deborah. Até tem os mesmos olhos claros! Beautiful blue eyes!!

Alexandra não cabe em si de espanto. Que surpresa! Abre bem os olhos azul-água porque assim parecem mais azuis e de certeza que ficam mais bonitos.

O pai dá pancadinhas na cara de Alexandra. É o que faz quando está orgulhoso dela, mas Alexandra não suporta aquilo. Já não é nenhum bebé. E agora muito menos.

É uma futura manequim.

— Bem, e agora vamos merendar. Tens de descansar da viagem — diz a mãe.

— Anda cá! — o tio Ralph chama Alexandra com um gesto. — Senta-te à minha beira!

Durante a merenda, Alexandra desabrocha como um pé de feijão, que cresce muito direito, com muitos rebentos brancos. Alexandra sente-se outra.

O tio Ralph segura-lhe na mão o tempo todo, excepto quando empurra com o polegar um pedaço de bolo para o garfo.

— Lá — diz, referindo-se a Londres — muitas raparigas são altas. Altas e elegantes como Alexandra mas não tão bonitas! — e pisca o olho esquerdo. — Mas os vienenses são todos uns arõezinhos!

— Anõezinhos — corrige-o o pai.

Depois do leite achocolatado, Alexandra levanta-se e dirige-se ao quarto de banho, de costas direitas, ombros direitos e com os seus dois centímetros e meio novamente recuperados.

Vai direita ao espelho e apaga, com uma toalha húmida, as riscas de sabão.

O reflexo de Alexandra no espelho vai-se tornando mais nítido. Vê os seus olhos azul-água e sorri, radiante, para a sua nova imagem.

Alexandra tira os ganchos do cabelo. Não precisa deles. Assim também é bonita.

O tio Ralph foi muito, muito simpático para com ela, segurou-lhe na mão e disse-lhe que era bonita. E em Londres toda a gente é alta. E elegante.

“Afinal”, pensa Alexandra, “sempre vou dizer à Manuela que venha cá hoje.”

Evelyne Stein-Fischer
13 Geschichten vom Liebhaben
München, DTV Junior, 1990
Texto adaptado



endereço: http://contadoresdestorias.wordpress.com/2007/07/17/alta-como-uma-estaca-evelyne-stein-fischer/

imagem: bruxinhasde hogwarts2.vilabol.uol.com.br


segunda-feira, 29 de março de 2010

CARÁTER E SELOS

O valor do homem está na dimensão do seu caráter. Caráter é a capacidade permanente de agir e a manifestação intrínseca de ser.
Certo funcionário de uma empresa, cristão, foi chamado um dia ao gabinete do dono da empresa. Sem meias palavras, o dono foi direto ao assunto: "Estamos reestruturando a empresa e precisamos de uma pessoa exatamente do seu tipo para ocupar a posição de gerente do setor. Analisamos a sua ficha e vimos que só há um problema com você: é a sua religião. O cargo é
incompatível com a sua fé. De modo que você terá que fazer uma opção entre a promoção no emprego e sua religião. Mas você não precisa responder agora. Vá para casa, hoje é sexta-feira, pense, e na segunda nos diga o que foi que decidiu".
O rapaz foi para casa envolto no manto da dúvida. De um lado, almejava o cargo - afinal, era a grande chance de sua vida. Quanta gente - pensou - não gostaria de estar em seu lugar! Por outro lado, e sua fé? E a igreja? E Deus? Os pensamentos se desencontravam em sua cabeça. Seu coração virou campo de batalha entre o certo e o errado, entre o real e o ideal. Noites sem dormir, não podia se concentrar num só pensamento. O pior fim de semana de sua vida, o pior sábado, o pior domingo...
Na segunda-feira, lá estava ele na empresa, já ansioso por encontrar-se com o dono: "E aí?" - quis saber o dono - "Qual é a sua decisão?"
"Acho que vou aceitar a proposta que me fez".
O patrão nem levantou a cabeça: "Então pode passar imediatamente no Departamento de Pessoal e pedir suas contas. Você está despedido!"
"Mas... patrão foi o senhor mesmo que me fez a proposta!."
"Sim, e você foi provado e não passou no teste. Se foi capaz de tão
rapidamente trair o seu Deus, quem me assegura que mais rapidamente ainda não trairá a sua empresa?"
A diferença entre TER e SER é que um é só quantidade, enquanto o outro é essência de vida, é qualidade de viver... O SER é eterno e o TER é passageiro...

Desconheço o autor


endereço e imagem: internet


***

SELO COMENTARISTA EXCELENTE




Ganhei esse belo selo da amiga luz Regina, do blog "Entrelinhas"
http://reginagoulartsantos.blogspot.com
Muito obrigado pela lembrança e amizade!!
Seu jeito todo especial de ser e escrever, seu belo sorriso fazem toda a diferença.
Obrigado por preencher nossas vidas com muita energia, alegrias e esperanças.
Retribuo oferecendo esse lindo selinho a todos os amigos e seguidores.
Muitos beijos carinhosos.


***


SELO ENTRELINHAS



Recebi este belo selo da Doce Amiga Regina, e que ofereço a todos os amigos e seguidores.
Anjo, obrigado por mais este carinho!!!
Beijo!!!


***

Selinho Sunshine Award


Ganhei este lindo selinho da Elisa do blog Pink Bom Elisa (http://elisa-fuji.blogspot.com)
Elisa, muito obrigado por este carinho e lembrança!

Pela regra tenho que oferecer para 12 blogs amigos. Mas como tenho dificuldades de escolher, com sua permissão, Elisa, ofereço a todos os amigos e seguidores.


Um super carinho!!!


terça-feira, 23 de março de 2010

SENTAR-SE À JANELA



Alexandre Garcia

Era criança quando, pela primeira vez, entrei em um avião. A ansiedade de voar era enorme.

Eu queria me sentar ao lado da janela de qualquer jeito, acompanhar o vôo desde o primeiro momento e sentir o avião correndo na pista cada vez mais rápido até a decolagem.

Ao olhar pela janela via, sem palavras, o avião rompendo as nuvens, chegando ao céu azul. Tudo era novidade e fantasia..
Cresci, me formei, e comecei a trabalhar. No meu trabalho, desde o início, voar era uma necessidade constante.
As reuniões em outras cidades e a correria me obrigavam, às vezes, a estar em dois lugares num mesmo dia.

No início pedia sempre poltronas ao lado da janela, e, ainda com olhos de menino, fitava as nuvens, curtia a viagem, e nem me incomodava de esperar um pouco mais para sair do avião, pegar a bagagem, coisa e tal.
O tempo foi passando, a correria aumentando, e já não fazia questão de me sentar à janela, nem mesmo de ver as nuvens, o sol, as cidades abaixo, o mar ou qualquer paisagem que fosse. Perdi o encanto. Pensava somente em chegar e sair, me acomodar rápido e sair rápido.
As poltronas do corredor agora eram exigência . Mais fáceis para sair sem ter que esperar ninguém, sempre e sempre preocupado com a hora, com o compromisso, com tudo, menos com a viagem, com a paisagem, comigo mesmo.

Por um desses maravilhosos 'acasos' do destino, estava eu louco para voltar de São Paulo numa tarde chuvosa, precisando chegar em Curitiba o mais rápido possível.

O vôo estava lotado e o único lugar disponível era uma janela, na última poltrona.
Sem pensar concordei de imediato, peguei meu bilhete e fui para o embarque.

Embarquei no avião, me acomodei na poltrona indicada: a janela.

Janela que há muito eu não via, ou melhor, pela qual já não me preocupava em olhar.

E, num rompante, assim que o avião decolou, lembrei-me da primeira vez que voara.

Senti novamente e estranhamente aquela ansiedade, aquele frio na barriga.

Olhava o avião rompendo as nuvens escuras até que, tendo passado pela chuva, apareceu o céu.

Era de um azul tão lindo como jamais tinha visto. E também o sol, que brilhava como se tivesse acabado de nascer.

Naquele instante, em que voltei a ser criança, percebi que estava deixando de viver um pouco a cada viagem em que desprezava aquela vista.

Pensei comigo mesmo: será que em relação às outras coisas da minha vida eu também não havia deixado de me sentar à janela, como, por exemplo, olhar pela janela das minhas amizades, do meu casamento, do meu trabalho e convívio pessoal?

Creio que aos poucos, e mesmo sem perceber, deixamos de olhar pela janela da nossa vida.

A vida também é uma viagem e se não nos sentarmos à janela, perdemos o que há de melhor: as paisagens, que são nossos amores, alegrias, tristezas, enfim, tudo o que nos mantém vivos.

Se viajarmos somente na poltrona do corredor, com pressa de chegar, sabe-se lá aonde, perderemos a oportunidade de apreciar as belezas que a viagem nos oferece.

Se você também está num ritmo acelerado, pedindo sempre poltronas do corredor, para embarcar e desembarcar rápido e 'ganhar tempo', pare um pouco e reflita sobre aonde você quer chegar.

A aeronave da nossa existência voa célere e a duração da viagem não é anunciada pelo comandante.

Não sabemos quanto tempo ainda nos resta.

Por essa razão, vale a pena sentar próximo da janela para não perder nenhum detalhe.

Afinal, 'a vida, a felicidade e a paz são
caminhos e não destinos'.


endereço: http://www.radiomineira.com
imagem:
thetopblog.wordpress.com


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